A minha geração é como todas as outras que nos precederam e igual a todas as que nos irão substituir: Foi capaz de coisas excepcionais e também responsável por muita merda.
Tenho orgulho em recordar que fomos capazes, com o nosso esforço, de começar a pagar pensões de reforma a milhares de portugueses que, durante a sua vida activa, não colocaram um tostão na Segurança Social, independentemente de muitos o poderem ter feito; soubemos, vale a pena repeti-lo, com o nosso trabalho, trazer o país para níveis invejáveis, até por grandes economias, de ínfima mortalidade infantil, de boa assistência médica e hospitalar, de escolaridade obrigatória; integrámos, quase sem que se desse por isso, centenas de milhar dos nossos compatriotas, apanhados nas malhas da descolonização; demos condições ao aparecimento de grandes figuras nos mais diversos domínios, desde a cultura ao desporto, que nada ficam a dever aos estrangeiros; construímos com, vale a pena dizê-lo? Sim, vale!, os nossos impostos, estradas (as famosas acessibilidades), escolas, pavilhões, piscinas, para que os então jovens pudessem crescer com aquilo que nós não tivemos; fomos generosos para com os povos das ex-colónias, acolhendo-os e continuando a pagar investimentos passados; enfim, o rol de coisas boas é tão vasto – por exemplo, os centros de dia - que não haveria espaço para o elencar.
Infelizmente (aqui vem o reverso), tão ocupados estávamos a trabalhar para pagar tudo isto, que não percebemos o facto de termos entregue o governo desta ancestral nação aos piores de nós, aos que, não sabendo fazer mais nada, se meteram logo nos partidos, criando a famosa geração de boys e girls que, passados estes anos, já se reproduziram em outros boys e girls, numa teia infindável de mordomias e interesses que, pela sua vastidão tentacular, é muito difícil de destruir; deixámos que essa gentalha se aproveitasse dos fundos europeus, destruindo a indústria, as pescas, a agricultura; permitimos que “banqueiros” tomassem conta disto, em roda livre, com a apropriação dos lucros fabulosos dos tempos das vacas gordas e a socialização dos prejuízos, quando estes inevitavelmente apareceram; aceitámos que sindicatos sem escrúpulos promovessem o aparecimento de verdadeiras aristocracias do trabalho, criando nichos de privilégios, nomeadamente onde o patrão é fraco (somos todos e não é ninguém), promovendo greves brutais que, paradoxalmente, só prejudicam os mais fracos; não impedimos que os partidos, no fundo, as organizações por que ansiávamos no ante-25 de Abril, se tornassem numa espécie de chulos legais do estado, apenas se preocupando com o seu umbigo, com ramificações nas autarquias, empresas, sindicatos; tão assustados estávamos com os tribunais plenários do Estado Novo que optámos por uma legislação (muitos chamam-lhe Justiça, mas a Justiça quase sempre é refém desta) extremamente garantista, especialmente para quem tem cabedais, que não funciona, bloqueia e desprotege o fraco perante o forte.
Sendo este conjunto de aspectos negativos, pelo menos, tão grande como o outro e estando muito mais presente nas redes sociais, também fico por aqui.
Parafraseando o nosso grande Cardoso Pires, resta-me a pergunta: E agora José?
Neste sábado (25) dirigentes da CGTP, do PC e do BE, acompanhados de mais alguns portugueses, foram manifestar-se em Belém, exigindo a queda do Governo e a convocação de eleições. Para quê? Para dar de novo o poder ao PS? Bom, para os promotores da manifestação tudo ficará na mesma. O mau deixa de ser o Passos e passa a ser o Seguro, provavelmente sem maioria absoluta, portanto com mais caldeirada E para o povo? Lembro-me que o Sócrates não teria caído se o PECIV (que agora até parece ser uma coisa óptima) tivesse passado. E não passou porque… bom, a direita não tinha maioria, portanto quem fez cair o PS? Bingo… os mesmos que agora, dois anos depois, querem eleições para o voltarem a colocar no poder, para depois o contestarem, fazerem cair, chamarem a direita, contestarem, etc… etc…
É assim meus amigos, a chave da mudança está no PC e no BE. Garantam-me que entram num governo com o PS, alinhando em reformas necessárias e, ao mesmo tempo, procurando, sem rupturas, puxar a brasa para o seu lado e a mudança terá o meu apoio.
Em linguagem do futebol, assumam-se como candidatos ao título (leia-se governo da nação).
Estar apenas do contra é muito mais fácil que meter as mãos no assunto e fazer, nem que seja mal feito.