Nota prévia:
A tertúlia dos fictícios e não existentes amigos, A.B.C.D., juntamente com mais uns quantos eventuais, largou a cervejaria e passou a reunir-se no novel Quiosque Santa Clara, perante pratinhos de rastejantes velozes e outros petiscos, como salada de polvo, devidamente acompanhados por cervejola da boa. É evidente que os reais e verdadeiros “coelhinho da Páscoa”, “Pai Natal”, “grilo falante” e “Grande Encenador do Universo”, embora não tendo sido avisados da mudança, poderão eventualmente continuar a ensombrar as conversas patibulares de alguns dos pretensos herdeiros – porque não o atrevimento – dos ancestrais “Vencidos da Vida”.
Esperamos que a “D.Felismina” e a sua querida filhinha “Umbelininha” possam também, na medida das suas possibilidades, visitar o local da reunião. É que a velha senhora apenas possui uma mísera pensão de 281 euros e a menina, apesar de licenciada em “Antropologia do bicho-da-seda”, com pós-graduação em “Comisserações sobre a alegada influência do cocó do bicho-de-conta no bater das asas da borboleta” e Mestre em “Acasalamento compulsivo de espécies em vias de extinção”, não consegue arranjar emprego público compatível e com direitos há mais de 5 anos, arrastando a sua existência como caixa do DoceContinentePingo, sempre na esperança que o Boaventura Sousa Santos lhe ofereça a mesma prebenda que outorgou ao Carvalho da Silva, fazendo-o Doutor, com maiúscula, mais rápido que um capitão passava a general durante o PREC.
Diz A: - Malta, já viram a maravilha do Carlos Sá, vencedor da mais difícil maratona do mundo. E o Rui Costa, vencedor da Volta à Suiça e de 2-etapas-2 da Volta à França?...
Diz B: - … e o António Damásio, que mapeou o cérebro humano…
Continua A: - … Não há dúvida, “NÓS”, os portugueses (e sublinha a entrada de rompante com um largo apontar dos dois dedos indicadores, bem tesos, para o próprio peito), “NÓS”, os portugueses, repete, temendo que a humanidade inteira não tivesse ouvido bem, “SOMOS” excepcionais, “SOMOS” capazes do impossível, o “NOSSO” brilhantismo é uma luz que “alumia” o mundo inteiro. Infelizmente os nossos políticos não nos merecem, só nos calham corruptos e incompetentes. É a nossa maldição, um povo tão bom, governado por tipos que não prestam.
Diz C: - Humm… ouve lá, então achas que essas figuras que citaste, e a que podias acrescentar o Figo, o Ronaldo, o Mourinho, o Évora no desporto de alta competição, o dito Damásio na Ciência, o Saramago na literatura, o Siza na arquitectura, para só falar destes, representam o povo português? O Zé e a Maria? Os que, se, por isto ou por aquilo, foram alcandroados a banqueiros ou presidentes desta ou daquela coisa, querem é mamar do bom e do belo, ter bons bólides, cartão com gordo crédito, querendo pouco saber da sustentabilidade das instituições que lhes calharam em sorte, privatizando os lucros e socializando os prejuízos, ou os discípulos de Hipócrates, juntamente com uns farmacêuticos sem escrúpulos, que burlam o SNS em milhões, os empresários que sacam o IVA dos clientes, o IRS e a TSU dos empregados e se “esquecem” de os entregar ao Estado e, quando apanhados, já preventivamente colocaram os bens ao luar em nome da tia, da prima, do cão, do gato e do periquito, que passam a vida a clamar contra “o peso excessivo do estado”, enquanto preenchem mais um pedido de subsídio, os autarcas que, na véspera da saída, assinam contratos lesivos para o povo, envolvendo milhões, os… os… os….
Neste ponto “C”, enervado com o enumerar dos infinitos crápulas que nos esbulham é obrigado a molhar a palavra…Ahhhh!
Diz D, acabado de chegar (mas ainda a tempo de ouvir o arrazoado de C):- “Tá” bem mas esses são os bandidos, não são o povo…
Diz C (limpando os beiços às costas da mão): - … brincamos, não? Espera, os portugueses que não tiveram tanta sorte e ficaram pela parte baixa da escala, usam a baixazinha fraudulenta, o recebimento do subsídio ao mesmo tempo que sacam uns biscates, na segunda-feira já proclamam que “nunca mais é sábado”, até fazem greve para satisfazer o Sindicato (o respeitinho é muito bonito) mas “metem” um P1, P2, P3, P4, Pn para não “perderem” o dia, que… que…
Diz B: - Esperem, os políticos são como são, porque emanam de nós! Falaste dos autarcas? Tens razão, são uns bandidos e uns corruptos. Mas certamente sabes que, aqui há uns anos, no tal tempo das vacas gordas, se algum autarca chegasse ao pé de um grupo de cidadãos e lhes perguntasse: – Gente da minha terra, o que é que acham que nos faz falta? Talvez uma biblioteca, um centro cultural, salas de estudo para as nossas crianças…
- “Atão” senhor presidente, o que faz falta são Icês, Ipês, acessibilidades, Escanzelados de Baixo tem oito rotundas e nós só temos sete? E subsídios a fundo perdido para que o nosso clube, o Atlético Sport Escanzeladense de Cima, possa comprar três brasileiros e dois búlgaros que nos impeçam de descer de divisão… Para bem do nosso concelho, se for preciso, até o senhor Abade os casa com umas meninas cá da terra, que estão a estudar em Lisboa, na Universidade qu’a gente não se alembra o nome mas que fica junto ao Campo Pequeno, na Óscar Monteiro Torres…
Diz D: - Queres então dizer que se o país está cheio de estradas, auto-estradas e rotundas é porque foram os populares que as pediram?
Diz A: Claro, porque é que achas que os corruptos são sucessivamente reeleitos?
Diz a D.Felisminha…(não podia faltar) : - Então e o partido da Catherine Deneuve, que disfarçou as contrapartidas do negócio dos “que andam debaixo de água”, com donativos, um dos quais de um tal Jacinto Leite Capelo Rego…
Diz B: - Bom, já que a senhora falou nesses, não se esqueça dos outros, os que, para aproveitar o método de Hondt, concorrem como um único partido ( e tanto eles gostariam de ser Partido Único) e, depois, desdobram-se convenientemente para terem dois grupos parlamentares, com assessores a dobrar, tempo de intervenção maior que os outros e até possibilidade de duas moções de censura.
Diz C:… e que estão sempre a pedir eleições. Pudera, assim podem mamar os subsídios para a campanha, uns quantos euritos por cada voto e até explorarem os “camaradas” que vão para as mesas de voto e entregam ao Partido as setenta e tal mocas que recebem dos contribuintes.
Diz B: - Vai lá perguntar aos partidos se querem reduzir o número de deputados, ou de Câmaras Municipais, ou de Freguesias, ou de Conselhos Coordenadores disto ou daquilo. Sim senhor, reduzir, poupar, reconverter, é importante mas, atenção, só se for no vizinho do lado.
Diz o Pai Natal, enquanto, mordendo o lábio inferior, rosna baixinho um “descontrai!… descontrai!…”: - É pá, isto está mesmo mau por esses lados; desculpem lá mas há uma grande diferença entre o tipo que rouba milhões e o desgraçado que rouba, vá lá, dez euros. Ou não há?
Diz o grilo falante: - Claro que há! O tipo que se permite só roubar dez euros é porque nunca teve hipótese de ter os tais milhões ao alcance.
Cai mesmo o pano!
sexta-feira, 19 de julho de 2013
quarta-feira, 17 de julho de 2013
Estação parva (IX)
O acordo entre o PS e o BE é como amor de estudante: não dura mais que uma hora.
O PS, com 1.568.168 votos nas últimas eleições, tem direito a 1 moção de censura. A CDU, com 441.852 votos nas últimas eleições, tem direito a 2-moções-2 de censura, ou seja, 3 vezes e meia mais de votos (no caso do PS) apenas permitem metade dos direitos da CDU.
O arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles foi um oposicionista ao Estado Novo. Em 1969 concorreu, juntamente com, entre outros, Mário Soares, nas listas da CEUD.
Os jardins da Gulbenkian têm a sua assinatura. Criou o movimento alfacinha e o projecto do corredor verde até Monsanto. Numa certa altura "TODA A GENTE" dizia: de políticos destes, sérios, dedicados à causa pública é que nós precisamos. Este homem é que seria o grande presidente da Câmara; pois bem, o homem candidatou-se e o mesmo povo que o apoiava e empurrava deu-lhe... 5%.
O médico Rui Marques, ligado às causas sociais, activista do Lusitânia Expresso, navio que afrontou a Indonésia durante a tragédia de Timor, fundador da revista Cais, com uma vida dedicada aos menos afortunados. Numa certa altura "TODA A GENTE" dizia: de políticos destes, sérios, dedicados à causa pública é que nós precisamos. Este homem é que seria um dos grandes dirigentes de Portugal ; pois bem, o homem candidatou-se e o mesmo povo que o apoiava e empurrava deu-lhe... 1,5%.
O Paulo de Morais e o José Gomes Ferreira são amplamente citados e partilhados na net, especialmente no facebook. Já os critiquei por só falarem e escreverem o que está certo, o que nós queremos, o que este país necessita, mas não se chegarem à frente. Nesta altura "TODA A GENTE" diz: de políticos destes, sérios, dedicados à causa pública é que nós precisamos. Estes homens é que seriam os grandes dirigentes de Portugal
Bom, pelos exemplos acima citados, provavelmente seria para depois os humilharmos nas urnas, como fizemos aos outros.
Temos o que merecemos!
O PS, com 1.568.168 votos nas últimas eleições, tem direito a 1 moção de censura. A CDU, com 441.852 votos nas últimas eleições, tem direito a 2-moções-2 de censura, ou seja, 3 vezes e meia mais de votos (no caso do PS) apenas permitem metade dos direitos da CDU.
O arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles foi um oposicionista ao Estado Novo. Em 1969 concorreu, juntamente com, entre outros, Mário Soares, nas listas da CEUD.
Os jardins da Gulbenkian têm a sua assinatura. Criou o movimento alfacinha e o projecto do corredor verde até Monsanto. Numa certa altura "TODA A GENTE" dizia: de políticos destes, sérios, dedicados à causa pública é que nós precisamos. Este homem é que seria o grande presidente da Câmara; pois bem, o homem candidatou-se e o mesmo povo que o apoiava e empurrava deu-lhe... 5%.
O médico Rui Marques, ligado às causas sociais, activista do Lusitânia Expresso, navio que afrontou a Indonésia durante a tragédia de Timor, fundador da revista Cais, com uma vida dedicada aos menos afortunados. Numa certa altura "TODA A GENTE" dizia: de políticos destes, sérios, dedicados à causa pública é que nós precisamos. Este homem é que seria um dos grandes dirigentes de Portugal ; pois bem, o homem candidatou-se e o mesmo povo que o apoiava e empurrava deu-lhe... 1,5%.
O Paulo de Morais e o José Gomes Ferreira são amplamente citados e partilhados na net, especialmente no facebook. Já os critiquei por só falarem e escreverem o que está certo, o que nós queremos, o que este país necessita, mas não se chegarem à frente. Nesta altura "TODA A GENTE" diz: de políticos destes, sérios, dedicados à causa pública é que nós precisamos. Estes homens é que seriam os grandes dirigentes de Portugal
Bom, pelos exemplos acima citados, provavelmente seria para depois os humilharmos nas urnas, como fizemos aos outros.
Temos o que merecemos!
Estação parva (VIII)
Diz A: - Malta, já leram aquela cena do Minipreço, que penalizou os tipos que fizeram greve com a transferência de local de trabalho? Nunca mais compro nesses gajos!
Diz B: - Ouve lá, tu que só compras gourmet nos supermercados premium, estás agora a arrotar umas postas de pescada sobre o Minipreço. Vê lá se percebes uma coisa: o Minipreço paga os salários a tempo e horas. Certo?
Diz A: - Sim, pelos vistos…
Diz B: - O Minipreço paga de acordo com o Contrato Colectivo de Trabalho para o sector. Certo?
Diz A: - Sim, mas adianta…
Diz B: - Não, as coisas devem ser clarificadas, o Minipreço respeita as leis em vigor, no que toca a subsídios (é uma empresa privada), horas extras, trabalho em dias de descanso e feriados, turnos, férias, baixas por doença…
Diz C: - … ou simulação de doença…
Diz B: - … não interessa, por “doença oficialmente comprovada por um médico”, ou seja, respeita o que está estabelecido?
Diz A: - Está bem, e depois?
Diz B: - E depois??? Então porque raio é que esses, vá lá, hoje estou bem disposto e vou chamar-lhes “trabalhadores”, fizeram greve?
Diz A: - Bem… eles fizeram greve porque o que está em causa não é o Minipreço, é a necessidade de derrubar o governo.
Diz B: - E, por acaso, a administração do Minipreço é que colocou lá este governo? Têm voto de qualidade? Não terão sido muitos dos que trabalham no Minipreço que votaram nos partidos que agora lá estão?
Diz C: - Por mim, tinham sido era todos despedidos!
Diz D - (acabado de chegar): Sabem a última do Cavaco? O que é que o gajo quer?
Diz A: - Boa tarde também para ti. Sabes, o geronte está completamente passado dos carretos.
Diz B: - Acham? Então o gajo está na política desde que o Sá Carneiro o fez Ministro das Finanças e vocês acham que o “filho do dono da bomba de gasolina de Boliqueime” está senil? E, com a quantidade de assessores que por lá andam, aquilo não é bem pensado? Quando um artista destes chega a Presidente quer é ficar na História como o que “fez e aconteceu, tal e coisa, coisa e tal”.
Diz C: - Cá para mim – posso estar enganado – mas o que o fulano quer é muito simples: Entala o PS num acordo que o “Rato” não quer. Lixa o Portas – aí o menino do Independente (lembram-se?) deu uma ajuda – colocando-o numa situação em que nem o CDS o vai querer…
Diz D: - … nas próximas eleições, em vez do partido do táxi, vai ser o partido da “mota”, dois gajos agarradinhos um ao outro mas a divertirem-se muito…
Diz C: - … Aí não vai haver acordo, eleições, o PS ganha, seguido de perto pelo PSD, e fica um governo do novo Bloco Central, capaz de fazer as reformas necessárias ao país.
Diz A: - Nem pensem nisso, os partidos à esquerda do PS já representam…
Diz D: - … nas sondagens… que valem o que valem…
Diz A: - … cerca de 20% do eleitorado.
Diz D: - Pois… o Sirysa, na Grécia, também ía ganhar e depois ganharam os tipos responsáveis pela situação anterior… isso tem sociologicamente um nome, de que não me lembro, mas tem qualquer coisa a ver com o facto de haver malta que, nas sondagens, responde o politicamente correcto e, depois, na solidão da cabine de voto, põe a cruzinha onde acha que é melhor para defender a sua “vidinha”, o seu “dinherinho”, “os seus interessezinhos”, “o seu carrinho”, “a sua casinha”…
Diz C: - … e na Islândia aconteceu a mesma coisa. O povo é mesmo parvo…
Diz D: - O Salazar e o Estaline é que a sabiam toda: o povinho é porreiro para as festas, sejam da comemoração dos “centenários”, a Grande Exposição do Mundo Português, ou os primeiros de Maio de Festa (o que é isso “de luta”), na Praça Vermelha…
Diz a Dona Felismina (sempre com os ouvidos atentos a uma boa conversa e enquanto deglute um scone, acompanhado de chá de tília):- Eu e a minha Umbelininha estivémos no piquenicão do Terreiro do Paço; aquilo é que foi uma manifestação à séria; para a próxima, aquele moço, o Arménio, tem de contratar o Tony Carreira para encerramento da jornada de luta. Então é que o governo não se aguentava.
Diz a empregada da cervejaria, após colocar mais uma rodada de jolas na mesa: - Se tiverem dúvidas sobre alguma coisa digam, porque hoje em dia está tudo na net e no meu smartphone, isto se o meu Jaquim não me tiver comido o saldo (antes fosse a mim) com as conversas com os amigos gay; sim, que isto é muito modernaço mas já não estou a achar muita piada.
Diz o coelhinho da Páscoa enquanto, agarrando uma pobre galinha precária pelas asas, numa rapidinha típica da sua espécie, ajuda um ovo teimoso a sair por onde deve; (a pobre galinha, sonhando com mais um contrato de 6 meses a ração mínima de milho, permite o abuso do perverso Coelho; quer dizer, se a coisa der certo, se não, vai queixar-se à comissão de defesa contra o assédio no local de trabalho): - Caros amigos, isto já borregou, preparem-se mas é para a saída do Euro, para as inflações a 2 dígitos, para deixarem de comprar os carrinhos novos a preço razoável, as férias “lá fora”, os cortes de luz no verão porque há seca e no inverno porque há inundações, os reformados a verem as pensões cairem para um terço do valor, as seringas descartáveis limpinhas com líxivia para serem reutilizadas…
Diz o grilo falante: - Mas isso seria óptimo, uma vida mais saudável, sem uvas do Chile, maçãs francesas, morangos espanhóis, festivais alive, telemóveis novos a cada 3 meses, com mezinhas naturais em vez de remédios importados (que não sabemos para que servem), vestidos de chita, a valorização do Festival da Canção e, acima de tudo, um viver calmo e sossegado “neste cantinho do céu”.
Diz o Pai Natal, que chegou atrasado devido ao imenso trabalho em ser servido de “alfinete-de-peito” por uma legião de crédulos (é a crueldade suprema: um desempregado de média duração cheio de trabalho): - Desculpa grilo, hoje cabe-me a mim terminar com… Pois!
Cai o pano.
Desta vez, avisado, consegui evitar a pancada que o Grande Encenador do Universo, mais uma vez, se preparava para descarregar na minha cabeça. À segunda só cai quem… Auuuuuuuu, …daaa-ssse. Não há azar, na tentativa de fugir ao castigo, levei com o pano de ferro. É a vida, já dizia o António de Oliveira… Guterres.
Diz B: - Ouve lá, tu que só compras gourmet nos supermercados premium, estás agora a arrotar umas postas de pescada sobre o Minipreço. Vê lá se percebes uma coisa: o Minipreço paga os salários a tempo e horas. Certo?
Diz A: - Sim, pelos vistos…
Diz B: - O Minipreço paga de acordo com o Contrato Colectivo de Trabalho para o sector. Certo?
Diz A: - Sim, mas adianta…
Diz B: - Não, as coisas devem ser clarificadas, o Minipreço respeita as leis em vigor, no que toca a subsídios (é uma empresa privada), horas extras, trabalho em dias de descanso e feriados, turnos, férias, baixas por doença…
Diz C: - … ou simulação de doença…
Diz B: - … não interessa, por “doença oficialmente comprovada por um médico”, ou seja, respeita o que está estabelecido?
Diz A: - Está bem, e depois?
Diz B: - E depois??? Então porque raio é que esses, vá lá, hoje estou bem disposto e vou chamar-lhes “trabalhadores”, fizeram greve?
Diz A: - Bem… eles fizeram greve porque o que está em causa não é o Minipreço, é a necessidade de derrubar o governo.
Diz B: - E, por acaso, a administração do Minipreço é que colocou lá este governo? Têm voto de qualidade? Não terão sido muitos dos que trabalham no Minipreço que votaram nos partidos que agora lá estão?
Diz C: - Por mim, tinham sido era todos despedidos!
Diz D - (acabado de chegar): Sabem a última do Cavaco? O que é que o gajo quer?
Diz A: - Boa tarde também para ti. Sabes, o geronte está completamente passado dos carretos.
Diz B: - Acham? Então o gajo está na política desde que o Sá Carneiro o fez Ministro das Finanças e vocês acham que o “filho do dono da bomba de gasolina de Boliqueime” está senil? E, com a quantidade de assessores que por lá andam, aquilo não é bem pensado? Quando um artista destes chega a Presidente quer é ficar na História como o que “fez e aconteceu, tal e coisa, coisa e tal”.
Diz C: - Cá para mim – posso estar enganado – mas o que o fulano quer é muito simples: Entala o PS num acordo que o “Rato” não quer. Lixa o Portas – aí o menino do Independente (lembram-se?) deu uma ajuda – colocando-o numa situação em que nem o CDS o vai querer…
Diz D: - … nas próximas eleições, em vez do partido do táxi, vai ser o partido da “mota”, dois gajos agarradinhos um ao outro mas a divertirem-se muito…
Diz C: - … Aí não vai haver acordo, eleições, o PS ganha, seguido de perto pelo PSD, e fica um governo do novo Bloco Central, capaz de fazer as reformas necessárias ao país.
Diz A: - Nem pensem nisso, os partidos à esquerda do PS já representam…
Diz D: - … nas sondagens… que valem o que valem…
Diz A: - … cerca de 20% do eleitorado.
Diz D: - Pois… o Sirysa, na Grécia, também ía ganhar e depois ganharam os tipos responsáveis pela situação anterior… isso tem sociologicamente um nome, de que não me lembro, mas tem qualquer coisa a ver com o facto de haver malta que, nas sondagens, responde o politicamente correcto e, depois, na solidão da cabine de voto, põe a cruzinha onde acha que é melhor para defender a sua “vidinha”, o seu “dinherinho”, “os seus interessezinhos”, “o seu carrinho”, “a sua casinha”…
Diz C: - … e na Islândia aconteceu a mesma coisa. O povo é mesmo parvo…
Diz D: - O Salazar e o Estaline é que a sabiam toda: o povinho é porreiro para as festas, sejam da comemoração dos “centenários”, a Grande Exposição do Mundo Português, ou os primeiros de Maio de Festa (o que é isso “de luta”), na Praça Vermelha…
Diz a Dona Felismina (sempre com os ouvidos atentos a uma boa conversa e enquanto deglute um scone, acompanhado de chá de tília):- Eu e a minha Umbelininha estivémos no piquenicão do Terreiro do Paço; aquilo é que foi uma manifestação à séria; para a próxima, aquele moço, o Arménio, tem de contratar o Tony Carreira para encerramento da jornada de luta. Então é que o governo não se aguentava.
Diz a empregada da cervejaria, após colocar mais uma rodada de jolas na mesa: - Se tiverem dúvidas sobre alguma coisa digam, porque hoje em dia está tudo na net e no meu smartphone, isto se o meu Jaquim não me tiver comido o saldo (antes fosse a mim) com as conversas com os amigos gay; sim, que isto é muito modernaço mas já não estou a achar muita piada.
Diz o coelhinho da Páscoa enquanto, agarrando uma pobre galinha precária pelas asas, numa rapidinha típica da sua espécie, ajuda um ovo teimoso a sair por onde deve; (a pobre galinha, sonhando com mais um contrato de 6 meses a ração mínima de milho, permite o abuso do perverso Coelho; quer dizer, se a coisa der certo, se não, vai queixar-se à comissão de defesa contra o assédio no local de trabalho): - Caros amigos, isto já borregou, preparem-se mas é para a saída do Euro, para as inflações a 2 dígitos, para deixarem de comprar os carrinhos novos a preço razoável, as férias “lá fora”, os cortes de luz no verão porque há seca e no inverno porque há inundações, os reformados a verem as pensões cairem para um terço do valor, as seringas descartáveis limpinhas com líxivia para serem reutilizadas…
Diz o grilo falante: - Mas isso seria óptimo, uma vida mais saudável, sem uvas do Chile, maçãs francesas, morangos espanhóis, festivais alive, telemóveis novos a cada 3 meses, com mezinhas naturais em vez de remédios importados (que não sabemos para que servem), vestidos de chita, a valorização do Festival da Canção e, acima de tudo, um viver calmo e sossegado “neste cantinho do céu”.
Diz o Pai Natal, que chegou atrasado devido ao imenso trabalho em ser servido de “alfinete-de-peito” por uma legião de crédulos (é a crueldade suprema: um desempregado de média duração cheio de trabalho): - Desculpa grilo, hoje cabe-me a mim terminar com… Pois!
Cai o pano.
Desta vez, avisado, consegui evitar a pancada que o Grande Encenador do Universo, mais uma vez, se preparava para descarregar na minha cabeça. À segunda só cai quem… Auuuuuuuu, …daaa-ssse. Não há azar, na tentativa de fugir ao castigo, levei com o pano de ferro. É a vida, já dizia o António de Oliveira… Guterres.
Estação parva (VII)
Diz A: - Os nossos direitos estão adquiridos e consignados em leis, contratos e até na própria Constituição…
Diz B: - Eu sou como o Demóstenes, também ando com uma lamparina acesa durante o dia, para ver se encontro um Homem honesto. De que Constituição falas? Da de 1911?, da de 1933?, da de 1976?, e com que revisão?, a de 1982?, a de 1989?, a de 1992?, a de 1997?, a de 2001?, a de 2004?, ou a de 2005?, ou a que há-de vir?
Diz C: - Direitos garantidos? Só se forem os das PPPs, esses sim são intocáveis; estão protegidos por contratos leoninos e, aliás, os grandes escritórios de advogados, cujos membros que ora estão a negociar pelos governos, ora estão a negociar pelas clientelas, sabem o que fazem…
Diz o coelhinho da Páscoa, entre duas invectivas contra um bando de galinhas precárias, poedeiras dos célebres ovos: - Lamento informá-los mas, enquanto o cumprimento dos vossos deveres apenas depende da vossa vontade e capacidade de os cumprirem, os vossos direitos apenas existem enquanto alguém vo-los outorgar!
Diz a empregada da cervejaria, ao depositar mais uma rodada de jolas em cima da mesa: - A propósito de outorgar, diz o meu Jaquim que o Torga é muito partilhado no Facebook, com uma frase que eu me lembro mas que já digo daqui a pouco, quando consultar o meu smartphone.
Diz o Pai Natal, enquanto acaricia o cabelo de um dos convivas (na verdade não é o verdadeiro Santa, mas um tipo desempregado de média duração, que faz uns biscates num centro comercial): - Bom, com a quantidade de tipos que ainda acreditam em mim, se há coisa que não me falta são uns bons bicos.
Diz a Dona Felismina (sempre com os ouvidos atentos a uma boa conversa e enquanto deglute um scone, acompanhado de chá de tília): - A minha filha Umbelininha também faz bicos; e olhem que são de qualidade, ainda este ano já ganhou duas vezes o título de empregada do mês na Fábrica de Fogões Meireles.
Diz a empregada da cervejaria: - Afinal não consigo saber a frase do Torga, porque o Jaquim “consumiu-me” o saldo em chats com uns gajos. Sim, porque o meu Jaquim não é retrógrado como vocês, agora deu nessa coisa de gay.
Diz A: É pá, eu ainda acredito nas leis, na justiça e no estado de direito; se as coisas não forem certinhas como eu penso, então é porque a sociedade está a desmoronar-se e o grande caos aproxima-se a "Passos" largos.
Começa a ouvir-se um ribombar crescente de intensidade, copos e garrafas tilintam e as paredes da cervejaria abrem rachas.
Levantam-se todos numa aflição enquanto, em uníssono, soltam um grito abafado : - O que é isto?
Diz o grilo falante: - Pois…
Cai o pano.
Aaaauuuuu, ...da-sssse, digo eu. Não há azar, foi o Grande Encenador do Universo que, sem querer, me acertou na cabeça com a última das doze pancadas de Molière.
Diz B: - Eu sou como o Demóstenes, também ando com uma lamparina acesa durante o dia, para ver se encontro um Homem honesto. De que Constituição falas? Da de 1911?, da de 1933?, da de 1976?, e com que revisão?, a de 1982?, a de 1989?, a de 1992?, a de 1997?, a de 2001?, a de 2004?, ou a de 2005?, ou a que há-de vir?
Diz C: - Direitos garantidos? Só se forem os das PPPs, esses sim são intocáveis; estão protegidos por contratos leoninos e, aliás, os grandes escritórios de advogados, cujos membros que ora estão a negociar pelos governos, ora estão a negociar pelas clientelas, sabem o que fazem…
Diz o coelhinho da Páscoa, entre duas invectivas contra um bando de galinhas precárias, poedeiras dos célebres ovos: - Lamento informá-los mas, enquanto o cumprimento dos vossos deveres apenas depende da vossa vontade e capacidade de os cumprirem, os vossos direitos apenas existem enquanto alguém vo-los outorgar!
Diz a empregada da cervejaria, ao depositar mais uma rodada de jolas em cima da mesa: - A propósito de outorgar, diz o meu Jaquim que o Torga é muito partilhado no Facebook, com uma frase que eu me lembro mas que já digo daqui a pouco, quando consultar o meu smartphone.
Diz o Pai Natal, enquanto acaricia o cabelo de um dos convivas (na verdade não é o verdadeiro Santa, mas um tipo desempregado de média duração, que faz uns biscates num centro comercial): - Bom, com a quantidade de tipos que ainda acreditam em mim, se há coisa que não me falta são uns bons bicos.
Diz a Dona Felismina (sempre com os ouvidos atentos a uma boa conversa e enquanto deglute um scone, acompanhado de chá de tília): - A minha filha Umbelininha também faz bicos; e olhem que são de qualidade, ainda este ano já ganhou duas vezes o título de empregada do mês na Fábrica de Fogões Meireles.
Diz a empregada da cervejaria: - Afinal não consigo saber a frase do Torga, porque o Jaquim “consumiu-me” o saldo em chats com uns gajos. Sim, porque o meu Jaquim não é retrógrado como vocês, agora deu nessa coisa de gay.
Diz A: É pá, eu ainda acredito nas leis, na justiça e no estado de direito; se as coisas não forem certinhas como eu penso, então é porque a sociedade está a desmoronar-se e o grande caos aproxima-se a "Passos" largos.
Começa a ouvir-se um ribombar crescente de intensidade, copos e garrafas tilintam e as paredes da cervejaria abrem rachas.
Levantam-se todos numa aflição enquanto, em uníssono, soltam um grito abafado : - O que é isto?
Diz o grilo falante: - Pois…
Cai o pano.
Aaaauuuuu, ...da-sssse, digo eu. Não há azar, foi o Grande Encenador do Universo que, sem querer, me acertou na cabeça com a última das doze pancadas de Molière.
Estação parva (VI)
A Assunção Esteves é mais estúpida que um calhau!
Quem pretende estar a um nível superior aos energúmenos que fizeram o triste espectáculo das galerias da Assembleia da República não pode colocar-se ao nível deles; ainda por cima sendo alguém que beneficiou de um estatuto especial e escandaloso (reforma avultada aos 42 anos). Pura e simplesmente pedia-lhes para se retirarem (como aliás fez, e bem, num primeiro tempo) e depois, perante o avolumar dos protestos, limitava-se a solicitar à polícia que evacuasse as galerias; uma medida profilática seria identificá-los e sugerir a um juiz que lhes aplicasse a medida de limpeza do hemicíclo.
A propósito destas “manifestações de protesto”, cumpre-me dizer que acho no mínimo incrível que profissionais do sindicalismo, pagos pelo erário público, possam passar a vida nisto. A democracia que não consegue colocar na ordem as suas próprias criações torna-se bandalheira, o que faz com que a generalidade do povo, um dia, clame pela “ordem”; Isto parece um remake do fim do regime da I República. Cuidado com o que pode estar para vir.
A mania de tratar como igual o que é diferente coloca-se nesta questão relacionada com os trabalhadores em funções públicas. É que o facto de professores, enfermeiros, médicos, polícias, juízes e outros com funções específicas, complexas e até perigosas, que estão devidamente elencadas, deverem ter condições de horário e idade de acesso à reforma diferentes dos outros, vulgarmente chamados “funcionários das repartições”, parece-me líquido e aceitável. Agora todos?
No privado as coisas foram feitas com tempo. Ainda hoje, em empresas e instituições (privadas) dos mais diversos tamanhos e actividades há “os antigos”, com condições diferentes dos “novos”; com o passar dos anos tudo se normaliza, à medida que os primeiros vão desaparecendo. Caso, nos últimos 30 anos, os governos tivessem tido a coragem de criar esses regimes duais de trabalho público, hoje já não haveria qualquer problema. Como isso nunca foi feito, tendo até o Cavacão sido um dos principais responsáveis pelo “monstro”, foi no primeiro governo do Sócrates e neste governo que tudo teve de ser feito à pressa, debaixo de enorme contestação e provavelmente mal feito.
Não costumo engolir a retórica de médicos, enfermeiros e professores que enfeitam a sua “luta” com a nobreza da “defesa do Serviço Nacional de Saúde” ou “da escola pública”. O que está em causa (e justamente) é dinheiro, porque é com ele que esses profissionais (como todos os outros) compram as vitualhas, pagam as casas e educam condignamente os filhos. Assim entendemo-nos.
Quem pretende estar a um nível superior aos energúmenos que fizeram o triste espectáculo das galerias da Assembleia da República não pode colocar-se ao nível deles; ainda por cima sendo alguém que beneficiou de um estatuto especial e escandaloso (reforma avultada aos 42 anos). Pura e simplesmente pedia-lhes para se retirarem (como aliás fez, e bem, num primeiro tempo) e depois, perante o avolumar dos protestos, limitava-se a solicitar à polícia que evacuasse as galerias; uma medida profilática seria identificá-los e sugerir a um juiz que lhes aplicasse a medida de limpeza do hemicíclo.
A propósito destas “manifestações de protesto”, cumpre-me dizer que acho no mínimo incrível que profissionais do sindicalismo, pagos pelo erário público, possam passar a vida nisto. A democracia que não consegue colocar na ordem as suas próprias criações torna-se bandalheira, o que faz com que a generalidade do povo, um dia, clame pela “ordem”; Isto parece um remake do fim do regime da I República. Cuidado com o que pode estar para vir.
A mania de tratar como igual o que é diferente coloca-se nesta questão relacionada com os trabalhadores em funções públicas. É que o facto de professores, enfermeiros, médicos, polícias, juízes e outros com funções específicas, complexas e até perigosas, que estão devidamente elencadas, deverem ter condições de horário e idade de acesso à reforma diferentes dos outros, vulgarmente chamados “funcionários das repartições”, parece-me líquido e aceitável. Agora todos?
No privado as coisas foram feitas com tempo. Ainda hoje, em empresas e instituições (privadas) dos mais diversos tamanhos e actividades há “os antigos”, com condições diferentes dos “novos”; com o passar dos anos tudo se normaliza, à medida que os primeiros vão desaparecendo. Caso, nos últimos 30 anos, os governos tivessem tido a coragem de criar esses regimes duais de trabalho público, hoje já não haveria qualquer problema. Como isso nunca foi feito, tendo até o Cavacão sido um dos principais responsáveis pelo “monstro”, foi no primeiro governo do Sócrates e neste governo que tudo teve de ser feito à pressa, debaixo de enorme contestação e provavelmente mal feito.
Não costumo engolir a retórica de médicos, enfermeiros e professores que enfeitam a sua “luta” com a nobreza da “defesa do Serviço Nacional de Saúde” ou “da escola pública”. O que está em causa (e justamente) é dinheiro, porque é com ele que esses profissionais (como todos os outros) compram as vitualhas, pagam as casas e educam condignamente os filhos. Assim entendemo-nos.
Estação parva (V)
O governo já “foi”, nem vale a pena gastar mais cera com tão ruim defunto.
Vamos então ter eleições, mais dia menos dia.
A partir do final dos setentas fui presença mais ou menos regular nas mesas de voto: Já fui presidente, vice, secretário e escrutinador. Nos primeiros tempos aquilo era uma multidão, todos os lugares preenchidos mais 2-delegados-2 por cada partido. Com o correr dos anos a coisa foi diminuindo, chegando este que se assina a participar em mesas de voto com o mínimo permitido por lei (3 cidadãos) e até os partidos passaram a ter um único delegado, digamos abrangente, que passava ciclicamente pelas mesas de voto. Talvez porque a malta começasse a estar de costas voltadas para este acto cívico, o Guterres, de cognome “o bonzinho”, criou a remuneração dos membros da mesa. Aí pude descansar porque, pelo menos numa primeira fase, passou a haver mais candidatos que lugares disponíveis.
No entanto, como a malta começou a fazer contas, o país parecia que estava em “vacas gordas” e também “setenta e seis euros por cerca de 11 horas de trabalho, ainda por cima em domingo ou feriado” não compensa, lá fui de novo chamado devido “à falta de um cidadão, devidamente justificada”. Ao responder à funcionária da Junta de Freguesia com um veemente não, quando esta me pediu o NIB para me ser creditado o valor da jorna, criei uma grande dificuldade à pobre rapariga. “Ó… não me faça uma coisa dessas porque me vai criar uma carga de trabalhos. Aceite, por favor”. A minha amiga Graça M., militante principal do PCP na zona, esclareceu-me logo: Nós não temos esse problema moral, damos logo o NIB do partido e fica resolvido. – Espera lá, então as mesas de voto são uma fonte de financiamento do partido? E isso é aceite? Tu podes “dar” um NIB que não é teu? Depois de um aceno cúmplice da minha amiga, lembrei-me do nosso grande Vasco Santana e retorqui com um piscar de olho: “Jerónimo amigo, andamos todos ao mesmo”.
Embora tenha pouco interesse para a história, lá acabei por aceitar, fazendo, de seguida, a doação exacta do valor recebido à “Casa das Cores” de Chelas, que acolhe crianças filhas de “agarrados”.
Eu sei que, para muita gente (para mim também) setenta e tal euros é um bom bónus. Agora é obviamente mais um exemplo de “má despesa pública”.
Vamos então ter eleições, mais dia menos dia.
A partir do final dos setentas fui presença mais ou menos regular nas mesas de voto: Já fui presidente, vice, secretário e escrutinador. Nos primeiros tempos aquilo era uma multidão, todos os lugares preenchidos mais 2-delegados-2 por cada partido. Com o correr dos anos a coisa foi diminuindo, chegando este que se assina a participar em mesas de voto com o mínimo permitido por lei (3 cidadãos) e até os partidos passaram a ter um único delegado, digamos abrangente, que passava ciclicamente pelas mesas de voto. Talvez porque a malta começasse a estar de costas voltadas para este acto cívico, o Guterres, de cognome “o bonzinho”, criou a remuneração dos membros da mesa. Aí pude descansar porque, pelo menos numa primeira fase, passou a haver mais candidatos que lugares disponíveis.
No entanto, como a malta começou a fazer contas, o país parecia que estava em “vacas gordas” e também “setenta e seis euros por cerca de 11 horas de trabalho, ainda por cima em domingo ou feriado” não compensa, lá fui de novo chamado devido “à falta de um cidadão, devidamente justificada”. Ao responder à funcionária da Junta de Freguesia com um veemente não, quando esta me pediu o NIB para me ser creditado o valor da jorna, criei uma grande dificuldade à pobre rapariga. “Ó… não me faça uma coisa dessas porque me vai criar uma carga de trabalhos. Aceite, por favor”. A minha amiga Graça M., militante principal do PCP na zona, esclareceu-me logo: Nós não temos esse problema moral, damos logo o NIB do partido e fica resolvido. – Espera lá, então as mesas de voto são uma fonte de financiamento do partido? E isso é aceite? Tu podes “dar” um NIB que não é teu? Depois de um aceno cúmplice da minha amiga, lembrei-me do nosso grande Vasco Santana e retorqui com um piscar de olho: “Jerónimo amigo, andamos todos ao mesmo”.
Embora tenha pouco interesse para a história, lá acabei por aceitar, fazendo, de seguida, a doação exacta do valor recebido à “Casa das Cores” de Chelas, que acolhe crianças filhas de “agarrados”.
Eu sei que, para muita gente (para mim também) setenta e tal euros é um bom bónus. Agora é obviamente mais um exemplo de “má despesa pública”.
Estação parva (IV)
O nosso PR libertou-se da categoria de “palhaço” e passou à de “macacão”.
A coisa promete.
Uma vez que - parece - não haver quem tenha acertado no que o homem ía dizer, o jackpot acumula com a crise seguinte.
A coisa promete.
Uma vez que - parece - não haver quem tenha acertado no que o homem ía dizer, o jackpot acumula com a crise seguinte.
terça-feira, 9 de julho de 2013
Estação parva (III)
Os 40 anos de ditadura provocaram o divórcio entre os cidadãos e o Estado: Durante o regime de Salazar / Caetano habituámo-nos, a designá-lo por “ELES”, como tão bem compreendeu e escreveu António Gedeão, no seu magnífico poema “Pedra Filosofal”.
“Eles não sabem que o sonho / é uma constante da vida”; “Eles não sabem que o sonho / é vinho, é espuma, é fermento”; “Eles não sabem que o sonho / é tela, é cor, é pincel”; “Eles não sabem, nem sonham / que o sonho comanda a vida”. Eles, eles, eles, eles…
Depois da “madrugada libertadora”, embora aí o Estado já tivesse passado a sermos “NÓS”, talvez com o balanço, não nos coibimos de permitir que uns quantos se entretivessem a começar a dar cabo do que, sendo de todos, não era propriamente de ninguém.
Tanta falta de amor e de respeito manifestámos pelo que já nos competia proteger e desenvolver que acolhemos, até por vezes com aplausos e admiração, todas as pequenas, grandes e enormes vigarices e gamanços com que fomos contemplados ao longo dos últimos 39 anos.
Agora, como diziam os velhos, torcemos as orelhas mas já não deitam sangue.
“Eles não sabem que o sonho / é uma constante da vida”; “Eles não sabem que o sonho / é vinho, é espuma, é fermento”; “Eles não sabem que o sonho / é tela, é cor, é pincel”; “Eles não sabem, nem sonham / que o sonho comanda a vida”. Eles, eles, eles, eles…
Depois da “madrugada libertadora”, embora aí o Estado já tivesse passado a sermos “NÓS”, talvez com o balanço, não nos coibimos de permitir que uns quantos se entretivessem a começar a dar cabo do que, sendo de todos, não era propriamente de ninguém.
Tanta falta de amor e de respeito manifestámos pelo que já nos competia proteger e desenvolver que acolhemos, até por vezes com aplausos e admiração, todas as pequenas, grandes e enormes vigarices e gamanços com que fomos contemplados ao longo dos últimos 39 anos.
Agora, como diziam os velhos, torcemos as orelhas mas já não deitam sangue.
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Estação parva (II)
Estação parva (II)
Como não sou adivinho, não sei qual vai ser a decisão do Cavaco. Também confesso que não me aquece nem me arrefece. Já vivi muitas crises e, em diversas fases da minha vida, já comi o pão que o diabo amassou. Aliás, tal como todos vós.
No entanto reparo que, este fim-de-semana, o PR teve à sua disposição dois importantes sinais, a saber:
1- O fracasso da manifestação que deveria manter-se em Belém até à queda do governo. Não é que muitas pessoas não estivessem lá em espírito; só que entre a criação das nossas émulas do Brasil, do Egipto ou da Turquia e uma saltada à praia, com umas jolas e uns caracóis a última hipótese foi mais forte.
2- Nem eram necessários os aplausos que brindaram os chefes do país nos Jerónimos; como as coisas estão, bastava a não hostilização habitual, para já ser um indicador importante.
A ver vamos.
Como não sou adivinho, não sei qual vai ser a decisão do Cavaco. Também confesso que não me aquece nem me arrefece. Já vivi muitas crises e, em diversas fases da minha vida, já comi o pão que o diabo amassou. Aliás, tal como todos vós.
No entanto reparo que, este fim-de-semana, o PR teve à sua disposição dois importantes sinais, a saber:
1- O fracasso da manifestação que deveria manter-se em Belém até à queda do governo. Não é que muitas pessoas não estivessem lá em espírito; só que entre a criação das nossas émulas do Brasil, do Egipto ou da Turquia e uma saltada à praia, com umas jolas e uns caracóis a última hipótese foi mais forte.
2- Nem eram necessários os aplausos que brindaram os chefes do país nos Jerónimos; como as coisas estão, bastava a não hostilização habitual, para já ser um indicador importante.
A ver vamos.
domingo, 7 de julho de 2013
Estação parva (1)
Uma boa notícia:
Parece que uma fábrica de congelados de Peniche, através de um investimento de alguns milhões, conseguiu criar 10 postos de trabalho e - essencialmente - manter os existentes.
Uma má notícia:
O sabonete "Feno de Portugal", o meu sabonete de há muitos anos, depois de ter andado desaparecido das prateleiras durante algum tempo, voltou. Após um primeiro momento de satisfação eu, que ando nisto da defesa e consumo apenas de produtos portugueses (a associação 56) há muito tempo, observei o dito sabonete e percebi a marosca: Em letras pequeninas lê-se que agora pertence à multinacional Colgate-Palmolive e é fabricado na... Turquia. Kaput!, voltou para onde estava. Se for preciso volto ao sabão-macaco.
Várias "não" notícias:
Parece que, das duas três: ou os portugueses respiraram de alívio com a ?solução? governamental ou borraram-se todos quando os "mercados" nos avisaram de que não "pode" haver crise política, ou então... já sei, foi o calor, esse malvado, que era pedido por toda a gente quando estava frio, que transformou o que iria ser a nossa praça Tahir numa brincadeira, com apenas algumas centenas de pessoas a exigirem, em Belém, a substituição do governo ilegítimo de direita por outro que, segundo as sondagens, seria também a curto prazo um governo ilegítimo, com políticas de direita.
Os nossos "mais honestos" (Paulo de Morais, José Gomes Ferreira, etc...) continuam a desdobrar-se em conferências, a ganhar dinheiro com a publicação de livros sobre a crise, a encherem-se de likes nas redes sociais, mas sem se chegarem à frente no sentido de serem alternativa ao "estado a que isto chegou". Sabem o que foi mal feito, sabem como deve ser feito, mas não dizem: eu vou e faço. Isso é que era bom!
Parece que uma fábrica de congelados de Peniche, através de um investimento de alguns milhões, conseguiu criar 10 postos de trabalho e - essencialmente - manter os existentes.
Uma má notícia:
O sabonete "Feno de Portugal", o meu sabonete de há muitos anos, depois de ter andado desaparecido das prateleiras durante algum tempo, voltou. Após um primeiro momento de satisfação eu, que ando nisto da defesa e consumo apenas de produtos portugueses (a associação 56) há muito tempo, observei o dito sabonete e percebi a marosca: Em letras pequeninas lê-se que agora pertence à multinacional Colgate-Palmolive e é fabricado na... Turquia. Kaput!, voltou para onde estava. Se for preciso volto ao sabão-macaco.
Várias "não" notícias:
Parece que, das duas três: ou os portugueses respiraram de alívio com a ?solução? governamental ou borraram-se todos quando os "mercados" nos avisaram de que não "pode" haver crise política, ou então... já sei, foi o calor, esse malvado, que era pedido por toda a gente quando estava frio, que transformou o que iria ser a nossa praça Tahir numa brincadeira, com apenas algumas centenas de pessoas a exigirem, em Belém, a substituição do governo ilegítimo de direita por outro que, segundo as sondagens, seria também a curto prazo um governo ilegítimo, com políticas de direita.
Os nossos "mais honestos" (Paulo de Morais, José Gomes Ferreira, etc...) continuam a desdobrar-se em conferências, a ganhar dinheiro com a publicação de livros sobre a crise, a encherem-se de likes nas redes sociais, mas sem se chegarem à frente no sentido de serem alternativa ao "estado a que isto chegou". Sabem o que foi mal feito, sabem como deve ser feito, mas não dizem: eu vou e faço. Isso é que era bom!
sexta-feira, 5 de julho de 2013
D. Carlinhos (II)
Era cliente habitual do Egas Moniz. Volta e
meia, tumba, já lá estava caído. As razões não interessam porque não são elas
as heroínas desta sublime aventura.
O início da coisa ainda está um pouco nebuloso, até porque, não havendo testemunhas credíveis, teremos de fazer fé no relato dos protagonistas.
Início em registo de comédia:
Uma bela noite, após a rotina normal de fim de jornada num grande Hospital Público, o nosso herói, acolitado por um espécime típico da zona da Boa-Hora / Ajuda, na tentativa de fornecer alguma distracção ao passar lento das horas precedentes do madrugador presenciar do rego das mamas da enfermeira que lhe viria mudar o frasco de soro, resolve organizar um grandioso concurso de peidos.
Ei-los que saem, trombeteantes uns, apenas ligeiramente sibilantes, outros. Volta e meia, tal como nas largadas de fogo-de-artifício, um ou mais morteiros estralejantes rompiam o silêncio da noite; o pianno, mezzopianno e o fortíssimo sucediam-se numa brilhante sinfonia a que não faltavam requintes pituitários motivados pelo lançamento de uma ou outra viúva que, por nítida falta de voz, apenas podia marcar presença pelas microscópicas gotículas de vapores de merda, emitidas para a atmosfera.
A festa só parava quando a puta da enfermeira espanhola, alertada pelas manifestações genuínas de felicidade escatolófila destes Portugueses dos quatro costados, aparecia, rosnando o aviso maléfico: “Poñam-se a pau que Su Alteza el príncipe tambien se lhama Filipe, tal como los otros que vos fueram à la peida, y a quatrocientos e tal años.”
Passado o arrepio a fiesta continuava, imune à turba adjacente, alguns mais para lá do que para cá, até ao previsível esgotamento dos gasómetros tripais, num aparente empate técnico, muito ao gosto dos nobres espíritos para quem a “saudável competição é o único mote de qualquer desporto de cavalheiros”.
Não fora o que adiante se transcreve, directamente dos autos oficiais, e pouco mais haveria a dizer…
No entanto…
Eis senão quando, pouco antes do clímax peidoral, em que as girândolas se sucedem a um ritmo avassalador, uma carcaça humana, postada e prostrada na cama em frente aos dois valorosos competidores, resolve, num gesto temerário, entrar no combate.
Dado o estado lastimável da canalização, a que não faltava um esfíncter completamente poroso e encarquilhado, o primeiro tiro transforma-se numa abominável torrente de merda. Ele era no pijama, nos lençóis, desde as fracas canelas até ao queixo tremente que a ausência dos dentes, esses sim, a descansar num copo de água, devidamente estacionado na mesinha de cabeceira, fazia sobressair. Enfim, uma completa desgraça que fez os nossos amigos estremecerem de pânico: “Se esse monte de merda chama a puta, estamos fodidos.”
Se eles o pensaram, melhor o outro o fez; agarrado à campainha, como um náufrago se acolhe ao destroço flutuante, não descansou enquanto a enorme figura da megera não assomou às portas batentes do serviço.
Ainda restava a esperança que, num assomo de dignidade, a pústula humana assumisse a culpa plena. Mas não, com o esquálido dedo espetado, digno de um Mr. Scrogge, esparramou a denúncia pidesca (ou DRENiana, segundo os novos cânones) sobre os valentes desportistas.
Final em drama:
La putéfia, em vez de, com caridade cristã, lavar e vestir o acamado, num gesto de vingança atroz, pega na panóplia de roupas completamente defecadas e dejectadas e coloca-as aos pés dos dois indefesos cidadãos, quais priores do Crato, humilhados sob os canhões de Olivares
Depois disto, só resta o desabafo: Viva Camões! Abaixo Cervantes!
O início da coisa ainda está um pouco nebuloso, até porque, não havendo testemunhas credíveis, teremos de fazer fé no relato dos protagonistas.
Início em registo de comédia:
Uma bela noite, após a rotina normal de fim de jornada num grande Hospital Público, o nosso herói, acolitado por um espécime típico da zona da Boa-Hora / Ajuda, na tentativa de fornecer alguma distracção ao passar lento das horas precedentes do madrugador presenciar do rego das mamas da enfermeira que lhe viria mudar o frasco de soro, resolve organizar um grandioso concurso de peidos.
Ei-los que saem, trombeteantes uns, apenas ligeiramente sibilantes, outros. Volta e meia, tal como nas largadas de fogo-de-artifício, um ou mais morteiros estralejantes rompiam o silêncio da noite; o pianno, mezzopianno e o fortíssimo sucediam-se numa brilhante sinfonia a que não faltavam requintes pituitários motivados pelo lançamento de uma ou outra viúva que, por nítida falta de voz, apenas podia marcar presença pelas microscópicas gotículas de vapores de merda, emitidas para a atmosfera.
A festa só parava quando a puta da enfermeira espanhola, alertada pelas manifestações genuínas de felicidade escatolófila destes Portugueses dos quatro costados, aparecia, rosnando o aviso maléfico: “Poñam-se a pau que Su Alteza el príncipe tambien se lhama Filipe, tal como los otros que vos fueram à la peida, y a quatrocientos e tal años.”
Passado o arrepio a fiesta continuava, imune à turba adjacente, alguns mais para lá do que para cá, até ao previsível esgotamento dos gasómetros tripais, num aparente empate técnico, muito ao gosto dos nobres espíritos para quem a “saudável competição é o único mote de qualquer desporto de cavalheiros”.
Não fora o que adiante se transcreve, directamente dos autos oficiais, e pouco mais haveria a dizer…
No entanto…
Eis senão quando, pouco antes do clímax peidoral, em que as girândolas se sucedem a um ritmo avassalador, uma carcaça humana, postada e prostrada na cama em frente aos dois valorosos competidores, resolve, num gesto temerário, entrar no combate.
Dado o estado lastimável da canalização, a que não faltava um esfíncter completamente poroso e encarquilhado, o primeiro tiro transforma-se numa abominável torrente de merda. Ele era no pijama, nos lençóis, desde as fracas canelas até ao queixo tremente que a ausência dos dentes, esses sim, a descansar num copo de água, devidamente estacionado na mesinha de cabeceira, fazia sobressair. Enfim, uma completa desgraça que fez os nossos amigos estremecerem de pânico: “Se esse monte de merda chama a puta, estamos fodidos.”
Se eles o pensaram, melhor o outro o fez; agarrado à campainha, como um náufrago se acolhe ao destroço flutuante, não descansou enquanto a enorme figura da megera não assomou às portas batentes do serviço.
Ainda restava a esperança que, num assomo de dignidade, a pústula humana assumisse a culpa plena. Mas não, com o esquálido dedo espetado, digno de um Mr. Scrogge, esparramou a denúncia pidesca (ou DRENiana, segundo os novos cânones) sobre os valentes desportistas.
Final em drama:
La putéfia, em vez de, com caridade cristã, lavar e vestir o acamado, num gesto de vingança atroz, pega na panóplia de roupas completamente defecadas e dejectadas e coloca-as aos pés dos dois indefesos cidadãos, quais priores do Crato, humilhados sob os canhões de Olivares
Depois disto, só resta o desabafo: Viva Camões! Abaixo Cervantes!
D. Carlinhos (I)
Tinha acabado de sair da Litografia onde
exercia com mestria o seu munus. Vá lá saber-se como, a feijoada do almoço
ainda continuava bem presente em frequentes assomos ameaçadores de
ventosidades, portadoras daquele perfume a enxofre, metano e ovos podres que
tanto prazer olfactivo proporcionam a quem os lança. Hesitou. Talvez ainda
fosse possível chegar a casa, ao fim e ao cabo, quase ao virar da esquina. Não,
era melhor não arriscar. Estugando o passo, uma vez que a monstruosa calda
fervente ameaçava a todo o momento, qual vulcão estromboliano, rebentar a ténue
protecção entrefólhica, encaminhou-se para a sua bem conhecida porta,
procurando, sem se afastar um milímetro do percurso, um recanto mais escondido
que lhe pudesse proporcionar uma alternativa, caso a cólica final chegasse mais
rapidamente que o previsto. Felizmente conseguiu acercar-se da abençoada
entrada. Imaginemos a tortura daqueles segundos, aparentemente diminutos mas um
verdadeiro tormento, enquanto o raio da chave fazia tentativas para abrir o
obstáculo final. No tempo em que a movimentação ritmada das passadas controlou
a ira dos deuses da defecação a coisa foi andando. Uma vez imóvel, frente à horrível
barreira, que teimava em resistir às voltas da chave milagrosa, as forças
tremendas do magma merdolento ressurgiram num frémito verdadeiramente
avassalador. Felizmente o monstro cedeu. Sem perder um segundo acelerou rumo à
casa de banho, procurando, ao mesmo tempo, desfazer-se das calças e das cuecas.
Aí chegado, sem sequer acender a luz, naquela penumbra de fim de tarde que
entrava pela minúscula janela, pode, finalmente, excrementar e – oh céus – o
prazer, a volúpia, o sétimo-céu, enquanto a massa fumegante se escapava
roncante umas vezes, apenas sussurrante outras, deixando um vazio cada vez
maior naquelas sofredoras tripas. Limpando um pouco o suor frio que se tinha
apossado da testa, olhou em volta. Os olhos, até então semi-cerrados de gozo, começaram
a habituar-se à pouca luz ambiente. Aí, surpresa das surpresas, exclamou ao
vislumbrar o formato da outra louça sanitária que fazia par com aquela onde
estava refastelado: “Tem piada, não me lembrava que esta cagadeira tinha duas
sanitas…”
Com a pressa, sem acender a luz, tinha-se aliviado no bidé.
Com a pressa, sem acender a luz, tinha-se aliviado no bidé.
Anos 70 (II)
Local, ano e acontecimento: Lisboa, Liceu de
Gil Vicente, 1972, exame oral de Geometria Descritiva do 7º ano (agora 11º).
Depois de um dèzito na escrita apresentei-me à oral. Tinha uma certa mania em matéria de desenho e, como tal, dedicado pouco tempo à disciplina em questão. Como não tinha ainda idade para me propor a exame, tinha-o sido pela saudosa Escola Luís de Camões, ao Intendente. Como Presidente do júri tocou-me o Roxo, arquitecto, mas que, por motivos nunca percebidos, se arrastava como professor de Trabalhos Manuais. Já o tinha apanhado no Camões entre 65 e 66 e agora lá estava ele, no Gil, com a tarefa de me examinar. Pela ordem alfabética tinha-me calhado ser o primeiro desse dia.
Após aquelas tretas iniciais lá me mandou desenhar uma linha de terra, o que fiz com algum sucesso, visto conseguir traçar rectas e curvas sem tremeliques o que me proporcionou o primeiro elogio dessa manhã soalheira.
Só que acabou por ser o primeiro e o último visto o resto do exame ter sido um desastre completo, em parte por azar, dado ter incidido sobre aquela parte (imensa, por acaso) da matéria que eu nem sequer tinha folheado.
As coisas iam de mal a pior quando o Roxo me perguntou “o que é que eu pretendia seguir”; a minha resposta, ainda por cima com um ar sério: Arquitecto, senhor arquitecto, logrou lançar uma excelente disposição sobre a sala, uma vez que, à gargalhada geral, se sucedeu o assassino dichote que o Roxo atirou aos outros elementos do júri: “Mais um que nunca lá vai chegar”. E não há dúvida que teve razão.
Ao terminar o exame fui contemplado com a ordem “de me manter na sala, tentando aprender alguma coisa com os restantes alunos que se seguiriam, com vista a uma melhor prestação na segunda época”:
Conformado com a sentença lá me vim sentar junto ao nosso Teodorias que tinha feito o favor de me acompanhar, trocando uma manhã de praia por este gesto solidário.
O aluno seguinte tinha dois apelidos, daqueles sonantes, ligados por uma partícula “e” e apresentava-se pujante ao exame, vestido com blazer azul, de botões dourados e calça cinzenta, não faltando a gravata de risca em diagonal. Ainda por cima os apelidos eram um único composto e não concatenados, género Apelido 1 da mãe e Apelido 2 do pai. Não me lembro da nota com que ía à oral, nem isso interessa para o caso. O Roxo quase fez uma vénia quando lhe perguntou “se Apelido 1 e Apelido 2 tinham algo a ver com o insigne Arquitecto Apelido 1 e Apelido 2”. Quando o moço respondeu “é meu pai” o Roxo, como não podia deixar de ser, sorrindo, retorquiu: “Como é evidente vai seguir a mesma carreira e tornar-se continuador da obra magnífica empreendida pelo seu pai?”.
Tendo obtido uma tímida resposta afirmativa lá recomeçou tudo com o desenho da linha de terra. Só que – Deus é Grande e nessa manhã de Junho de 1972 estava de olhos bem abertos – o menino Apelido1 e Apelido 2 ainda sabia menos que eu, com a agravante de nem conseguir desenhar linhas direitas.
À medida que o exame decorria eu era presenteado pelo Roxo com olhares assassinos. Notava-se o arrependimento de me ter mandado ficar, associado ao crescente murmúrio da sala, cada vez que o futuro Arquitecto se espalhava sem apelo nem agravo.
Para abreviar apenas posso dizer que, tanto ele como eu, passámos com 10 (naqueles tempos ainda havia um bocadinho de vergonha) e, ao contrário deste escriba, o Apelido 1 e Apelido 2 tornou-se mesmo Arquitecto, digno sucessor do Atelier do paizinho.
Quanto a mim não há dúvida que, nesse dia, estava mesmo com o cuzinho virado para a Lua.
Depois de um dèzito na escrita apresentei-me à oral. Tinha uma certa mania em matéria de desenho e, como tal, dedicado pouco tempo à disciplina em questão. Como não tinha ainda idade para me propor a exame, tinha-o sido pela saudosa Escola Luís de Camões, ao Intendente. Como Presidente do júri tocou-me o Roxo, arquitecto, mas que, por motivos nunca percebidos, se arrastava como professor de Trabalhos Manuais. Já o tinha apanhado no Camões entre 65 e 66 e agora lá estava ele, no Gil, com a tarefa de me examinar. Pela ordem alfabética tinha-me calhado ser o primeiro desse dia.
Após aquelas tretas iniciais lá me mandou desenhar uma linha de terra, o que fiz com algum sucesso, visto conseguir traçar rectas e curvas sem tremeliques o que me proporcionou o primeiro elogio dessa manhã soalheira.
Só que acabou por ser o primeiro e o último visto o resto do exame ter sido um desastre completo, em parte por azar, dado ter incidido sobre aquela parte (imensa, por acaso) da matéria que eu nem sequer tinha folheado.
As coisas iam de mal a pior quando o Roxo me perguntou “o que é que eu pretendia seguir”; a minha resposta, ainda por cima com um ar sério: Arquitecto, senhor arquitecto, logrou lançar uma excelente disposição sobre a sala, uma vez que, à gargalhada geral, se sucedeu o assassino dichote que o Roxo atirou aos outros elementos do júri: “Mais um que nunca lá vai chegar”. E não há dúvida que teve razão.
Ao terminar o exame fui contemplado com a ordem “de me manter na sala, tentando aprender alguma coisa com os restantes alunos que se seguiriam, com vista a uma melhor prestação na segunda época”:
Conformado com a sentença lá me vim sentar junto ao nosso Teodorias que tinha feito o favor de me acompanhar, trocando uma manhã de praia por este gesto solidário.
O aluno seguinte tinha dois apelidos, daqueles sonantes, ligados por uma partícula “e” e apresentava-se pujante ao exame, vestido com blazer azul, de botões dourados e calça cinzenta, não faltando a gravata de risca em diagonal. Ainda por cima os apelidos eram um único composto e não concatenados, género Apelido 1 da mãe e Apelido 2 do pai. Não me lembro da nota com que ía à oral, nem isso interessa para o caso. O Roxo quase fez uma vénia quando lhe perguntou “se Apelido 1 e Apelido 2 tinham algo a ver com o insigne Arquitecto Apelido 1 e Apelido 2”. Quando o moço respondeu “é meu pai” o Roxo, como não podia deixar de ser, sorrindo, retorquiu: “Como é evidente vai seguir a mesma carreira e tornar-se continuador da obra magnífica empreendida pelo seu pai?”.
Tendo obtido uma tímida resposta afirmativa lá recomeçou tudo com o desenho da linha de terra. Só que – Deus é Grande e nessa manhã de Junho de 1972 estava de olhos bem abertos – o menino Apelido1 e Apelido 2 ainda sabia menos que eu, com a agravante de nem conseguir desenhar linhas direitas.
À medida que o exame decorria eu era presenteado pelo Roxo com olhares assassinos. Notava-se o arrependimento de me ter mandado ficar, associado ao crescente murmúrio da sala, cada vez que o futuro Arquitecto se espalhava sem apelo nem agravo.
Para abreviar apenas posso dizer que, tanto ele como eu, passámos com 10 (naqueles tempos ainda havia um bocadinho de vergonha) e, ao contrário deste escriba, o Apelido 1 e Apelido 2 tornou-se mesmo Arquitecto, digno sucessor do Atelier do paizinho.
Quanto a mim não há dúvida que, nesse dia, estava mesmo com o cuzinho virado para a Lua.
Anos 70 (I)
O nosso Professor dos “safanões dados a tempo”
– já estamos, obviamente, todos de pé – iniciou a sua grande viagem, rumo às
grandes pradarias celestes, fará 43 anos no dia 27 de Julho.
Nessa época eu, com os meus “quinzanitos”, já dava os primeiros passos no mundo do trabalho, mais precisamente na secção de sobrescritos da Papelaria Fernandes.
Todos conhecemos as histórias das partidas pregadas aos maçaricos, desde “ir buscar a marreta de amaciar borracha”, até “colar os rectângulozinhos nos cartões de 80 colunas, para serem reutilizados”, entre muitas outras, um pouco o equivalente à caça aos gambozinos que mimoseava os amedrontados putos na sua iniciação aos acampamentos.
Como não podia deixar de ser, também me vi envolvido numa cena dessas.
Toca a enquadrar a coisa: Os sobrescritos (basta abrir – planificar – um para perceber) têm um formato específico. São cortados por um molde de ferro, pesando cerca de 15 Kg (o cortante), através de uma máquina de pressão (o balancé). Ora esse cortante deve estar bem afiado para poder lacerar sem falhas a montanha de papel.
No meu primeiro dia de trabalho, um ano antes, o “ti” Armando, como era conhecido, chamou-me para me dizer, com um ar muito sério, que uma das minhas funções como aprendiz era levar os cortantes a afiar “ao Beco das Olarias” e, a propósito, já ali tinha o primeiro.
Quando olhei para o monstro (era um dos modelos maiores e mais pesados) comecei a pensar que estava metido num bom sarilho. Enfim, alguém havia de me ajudar, pelo menos, a colocá-lo numa espécie de protecções de madeira que serviam para o transportar.
Nesse momento o chefe chamou-me para me mandar ir buscar qualquer coisa a outra secção e o assunto ficou em suspenso.
Quando voltei já passava do meio-dia e tanto o “ti” Armando como os outros já tinham ido almoçar. Que fazer? Bom, eu não era nenhum mariquinhas e, além disso – atenção - já tinha o quinto ano o que era, no conjunto daquela tropa, chefes e sub-chefes incluídos, o maior nível de habilitações da oficina. Lá arranjei uns apoios, umas cordas, umas capas de papel kraft impermeável para ser mais grosso e, ao fim de algum tempo, lá tinha o cortante devidamente protegido e embalado.
A odisseia seguinte foi conseguir rolá-lo (um cortante tinha, mais ou menos, o formato de um quadrado) durante a centena de metros que separava o pátio das oficinas da paragem do 25, em pleno Largo do Rato. O próprio porteiro, meio aparvalhado, apenas sorriu quando lhe disse que cumpria ordens do “ti” Armando.
Felizmente um grupo de guarda-freios, que estava à sombra das frondosas árvores que ornamentavam o Rato nessa época, ajudou-me a elevar a bisarma até à plataforma da frente do eléctrico. A suar que nem uma besta lá segui até ao Martim Moniz a troco do bilhetinho azul de quinze tostões, bem guardadinho no bolso para mais tarde prestar contas.
Uma vez no Martim Moniz lá foi o resto do “calvário”: Rodar o trambolho Calçada dos Cavaleiros acima, virar à esquerda, ultrapassar umas escadinhas de que a zona é fértil e descobrir, num canto a Serralharia Mecânica das Olarias.
Ainda meio curvado e completamente encharcado de suor ouvi o dono da oficina proclamar um rotundo “Eh cumcaralho estás fodido, que os gajos andam todos à tua procura, já ligaram para cá e tudo. Isso era uma partida para tu te borrares todo e começares a suplicar, com a malta toda a rir. Essas merdas vêm numa carrinha, juntamente com as lâminas de guilhotina”.
Que se foda, pensei, cumpri as ordens que me deram e o resto é conversa.
Pelo sim pelo não, na expectativa de não me pagarem o bilhete, regressei a penates. Preferi passar pela Barros Queirós e, para retemperar forças, emborcar um peppermint fresquinho na Ginginha Rubi.
Quando cheguei o ambiente, apesar do meu receio, era de admiração e de festa. Quem tinha “levado na carola” do chefe, para não ser esperto, era o “ti” Armando. No final, na minha faceta de mini-intelectual em formação e para a glória ser completa, ainda os brindei com a treta de ter sido aquela merda da história da “carta a Garcia” a mentora da minha façanha.
Uma das coisas que me maravilhava nessa oficina era, como não podia deixar de ser, a cagadeira.
Uma coisa como deve ser, quadrada, rentinha ao chão e com uns pequenos ressaltos laterais que permitiam uma perfeita aderência, quer das botas, no Inverno, quer de umas sapatilhas de lona, que mais tarde se vieram a chamar ténis, no tempo quente.
Um gajo cagava acocorado, posição ideal para que a defecação saísse na totalidade. A merda fazia dois sons distintos – lembro-me como se fosse hoje – “paff”, quando batia no ligeiro plano inclinado de louça ou “ploc” quando acertava no buraco perfeitamente centrado dessa peça maravilhosamente fabricada na “Sacavém” – não havia essas paneleirices da “roca” ou do “mantovani” – palavra mágica que aparecia, a azul (uma diagonal perfeita), num dos rebordos que, há muitos anos, já tinham sido brancos.
Uma e outra situação tinham as suas “nuances” escatolófilas: No primeiro caso soltavam-se uns ligeiros vapores perfumados, mais perceptíveis no frio do Inverno. No segundo eram as gotas de água (só água?) que, ao ressaltarem sob o impacto do cagalhão, vinham refrescar o cú assado pelos calores do Estio.
Fica a minha solene homenagem a essa grande fábrica, infelizmente já substituída por um condomínio fechado (As voltas que o Maior Português de Sempre deve dar na campa rasa de Santa Comba), que parece – dizem, que eu não sei nada dessas coisas – serve de poiso a uma data de directores de finanças da zona (porque será?) e que proporcionou, durante anos e anos, a milhões de compatriotas, cagadeiras para aliviar a tripa, mijadeiras para mudar a água às azeitonas e bidés para lavar as partes.
Nessa época eu, com os meus “quinzanitos”, já dava os primeiros passos no mundo do trabalho, mais precisamente na secção de sobrescritos da Papelaria Fernandes.
Todos conhecemos as histórias das partidas pregadas aos maçaricos, desde “ir buscar a marreta de amaciar borracha”, até “colar os rectângulozinhos nos cartões de 80 colunas, para serem reutilizados”, entre muitas outras, um pouco o equivalente à caça aos gambozinos que mimoseava os amedrontados putos na sua iniciação aos acampamentos.
Como não podia deixar de ser, também me vi envolvido numa cena dessas.
Toca a enquadrar a coisa: Os sobrescritos (basta abrir – planificar – um para perceber) têm um formato específico. São cortados por um molde de ferro, pesando cerca de 15 Kg (o cortante), através de uma máquina de pressão (o balancé). Ora esse cortante deve estar bem afiado para poder lacerar sem falhas a montanha de papel.
No meu primeiro dia de trabalho, um ano antes, o “ti” Armando, como era conhecido, chamou-me para me dizer, com um ar muito sério, que uma das minhas funções como aprendiz era levar os cortantes a afiar “ao Beco das Olarias” e, a propósito, já ali tinha o primeiro.
Quando olhei para o monstro (era um dos modelos maiores e mais pesados) comecei a pensar que estava metido num bom sarilho. Enfim, alguém havia de me ajudar, pelo menos, a colocá-lo numa espécie de protecções de madeira que serviam para o transportar.
Nesse momento o chefe chamou-me para me mandar ir buscar qualquer coisa a outra secção e o assunto ficou em suspenso.
Quando voltei já passava do meio-dia e tanto o “ti” Armando como os outros já tinham ido almoçar. Que fazer? Bom, eu não era nenhum mariquinhas e, além disso – atenção - já tinha o quinto ano o que era, no conjunto daquela tropa, chefes e sub-chefes incluídos, o maior nível de habilitações da oficina. Lá arranjei uns apoios, umas cordas, umas capas de papel kraft impermeável para ser mais grosso e, ao fim de algum tempo, lá tinha o cortante devidamente protegido e embalado.
A odisseia seguinte foi conseguir rolá-lo (um cortante tinha, mais ou menos, o formato de um quadrado) durante a centena de metros que separava o pátio das oficinas da paragem do 25, em pleno Largo do Rato. O próprio porteiro, meio aparvalhado, apenas sorriu quando lhe disse que cumpria ordens do “ti” Armando.
Felizmente um grupo de guarda-freios, que estava à sombra das frondosas árvores que ornamentavam o Rato nessa época, ajudou-me a elevar a bisarma até à plataforma da frente do eléctrico. A suar que nem uma besta lá segui até ao Martim Moniz a troco do bilhetinho azul de quinze tostões, bem guardadinho no bolso para mais tarde prestar contas.
Uma vez no Martim Moniz lá foi o resto do “calvário”: Rodar o trambolho Calçada dos Cavaleiros acima, virar à esquerda, ultrapassar umas escadinhas de que a zona é fértil e descobrir, num canto a Serralharia Mecânica das Olarias.
Ainda meio curvado e completamente encharcado de suor ouvi o dono da oficina proclamar um rotundo “Eh cumcaralho estás fodido, que os gajos andam todos à tua procura, já ligaram para cá e tudo. Isso era uma partida para tu te borrares todo e começares a suplicar, com a malta toda a rir. Essas merdas vêm numa carrinha, juntamente com as lâminas de guilhotina”.
Que se foda, pensei, cumpri as ordens que me deram e o resto é conversa.
Pelo sim pelo não, na expectativa de não me pagarem o bilhete, regressei a penates. Preferi passar pela Barros Queirós e, para retemperar forças, emborcar um peppermint fresquinho na Ginginha Rubi.
Quando cheguei o ambiente, apesar do meu receio, era de admiração e de festa. Quem tinha “levado na carola” do chefe, para não ser esperto, era o “ti” Armando. No final, na minha faceta de mini-intelectual em formação e para a glória ser completa, ainda os brindei com a treta de ter sido aquela merda da história da “carta a Garcia” a mentora da minha façanha.
Uma das coisas que me maravilhava nessa oficina era, como não podia deixar de ser, a cagadeira.
Uma coisa como deve ser, quadrada, rentinha ao chão e com uns pequenos ressaltos laterais que permitiam uma perfeita aderência, quer das botas, no Inverno, quer de umas sapatilhas de lona, que mais tarde se vieram a chamar ténis, no tempo quente.
Um gajo cagava acocorado, posição ideal para que a defecação saísse na totalidade. A merda fazia dois sons distintos – lembro-me como se fosse hoje – “paff”, quando batia no ligeiro plano inclinado de louça ou “ploc” quando acertava no buraco perfeitamente centrado dessa peça maravilhosamente fabricada na “Sacavém” – não havia essas paneleirices da “roca” ou do “mantovani” – palavra mágica que aparecia, a azul (uma diagonal perfeita), num dos rebordos que, há muitos anos, já tinham sido brancos.
Uma e outra situação tinham as suas “nuances” escatolófilas: No primeiro caso soltavam-se uns ligeiros vapores perfumados, mais perceptíveis no frio do Inverno. No segundo eram as gotas de água (só água?) que, ao ressaltarem sob o impacto do cagalhão, vinham refrescar o cú assado pelos calores do Estio.
Fica a minha solene homenagem a essa grande fábrica, infelizmente já substituída por um condomínio fechado (As voltas que o Maior Português de Sempre deve dar na campa rasa de Santa Comba), que parece – dizem, que eu não sei nada dessas coisas – serve de poiso a uma data de directores de finanças da zona (porque será?) e que proporcionou, durante anos e anos, a milhões de compatriotas, cagadeiras para aliviar a tripa, mijadeiras para mudar a água às azeitonas e bidés para lavar as partes.
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