quarta-feira, 17 de julho de 2013

Estação parva (VII)

Diz A: - Os nossos direitos estão adquiridos e consignados em leis, contratos e até na própria Constituição…
Diz B: - Eu sou como o Demóstenes, também ando com uma lamparina acesa durante o dia, para ver se encontro um Homem honesto. De que Constituição falas? Da de 1911?, da de 1933?, da de 1976?, e com que revisão?, a de 1982?, a de 1989?, a de 1992?, a de 1997?, a de 2001?, a de 2004?, ou a de 2005?, ou a que há-de vir?
Diz C: - Direitos garantidos? Só se forem os das PPPs, esses sim são intocáveis; estão protegidos por contratos leoninos e, aliás, os grandes escritórios de advogados, cujos membros que ora estão a negociar pelos governos, ora estão a negociar pelas clientelas, sabem o que fazem…
Diz o coelhinho da Páscoa, entre duas invectivas contra um bando de galinhas precárias, poedeiras dos célebres ovos: - Lamento informá-los mas, enquanto o cumprimento dos vossos deveres apenas depende da vossa vontade e capacidade de os cumprirem, os vossos direitos apenas existem enquanto alguém vo-los outorgar!
Diz a empregada da cervejaria, ao depositar mais uma rodada de jolas em cima da mesa: - A propósito de outorgar, diz o meu Jaquim que o Torga é muito partilhado no Facebook, com uma frase que eu me lembro mas que já digo daqui a pouco, quando consultar o meu smartphone.
Diz o Pai Natal, enquanto acaricia o cabelo de um dos convivas (na verdade não é o verdadeiro Santa, mas um tipo desempregado de média duração, que faz uns biscates num centro comercial): - Bom, com a quantidade de tipos que ainda acreditam em mim, se há coisa que não me falta são uns bons bicos.
Diz a Dona Felismina (sempre com os ouvidos atentos a uma boa conversa e enquanto deglute um scone, acompanhado de chá de tília): - A minha filha Umbelininha também faz bicos; e olhem que são de qualidade, ainda este ano já ganhou duas vezes o título de empregada do mês na Fábrica de Fogões Meireles.
Diz a empregada da cervejaria: - Afinal não consigo saber a frase do Torga, porque o Jaquim “consumiu-me” o saldo em chats com uns gajos. Sim, porque o meu Jaquim não é retrógrado como vocês, agora deu nessa coisa de gay.
Diz A: É pá, eu ainda acredito nas leis, na justiça e no estado de direito; se as coisas não forem certinhas como eu penso, então é porque a sociedade está a desmoronar-se e o grande caos aproxima-se a "Passos" largos.
Começa a ouvir-se um ribombar crescente de intensidade, copos e garrafas tilintam e as paredes da cervejaria abrem rachas.
Levantam-se todos numa aflição enquanto, em uníssono, soltam um grito abafado : - O que é isto?
Diz o grilo falante: - Pois…
Cai o pano.
Aaaauuuuu, ...da-sssse, digo eu. Não há azar, foi o Grande Encenador do Universo que, sem querer, me acertou na cabeça com a última das doze pancadas de Molière.

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