Nota prévia:
A tertúlia dos fictícios e não existentes amigos, A.B.C.D., juntamente com mais uns quantos eventuais, largou a cervejaria e passou a reunir-se no novel Quiosque Santa Clara, perante pratinhos de rastejantes velozes e outros petiscos, como salada de polvo, devidamente acompanhados por cervejola da boa. É evidente que os reais e verdadeiros “coelhinho da Páscoa”, “Pai Natal”, “grilo falante” e “Grande Encenador do Universo”, embora não tendo sido avisados da mudança, poderão eventualmente continuar a ensombrar as conversas patibulares de alguns dos pretensos herdeiros – porque não o atrevimento – dos ancestrais “Vencidos da Vida”.
Esperamos que a “D.Felismina” e a sua querida filhinha “Umbelininha” possam também, na medida das suas possibilidades, visitar o local da reunião. É que a velha senhora apenas possui uma mísera pensão de 281 euros e a menina, apesar de licenciada em “Antropologia do bicho-da-seda”, com pós-graduação em “Comisserações sobre a alegada influência do cocó do bicho-de-conta no bater das asas da borboleta” e Mestre em “Acasalamento compulsivo de espécies em vias de extinção”, não consegue arranjar emprego público compatível e com direitos há mais de 5 anos, arrastando a sua existência como caixa do DoceContinentePingo, sempre na esperança que o Boaventura Sousa Santos lhe ofereça a mesma prebenda que outorgou ao Carvalho da Silva, fazendo-o Doutor, com maiúscula, mais rápido que um capitão passava a general durante o PREC.
Diz A: - Malta, já viram a maravilha do Carlos Sá, vencedor da mais difícil maratona do mundo. E o Rui Costa, vencedor da Volta à Suiça e de 2-etapas-2 da Volta à França?...
Diz B: - … e o António Damásio, que mapeou o cérebro humano…
Continua A: - … Não há dúvida, “NÓS”, os portugueses (e sublinha a entrada de rompante com um largo apontar dos dois dedos indicadores, bem tesos, para o próprio peito), “NÓS”, os portugueses, repete, temendo que a humanidade inteira não tivesse ouvido bem, “SOMOS” excepcionais, “SOMOS” capazes do impossível, o “NOSSO” brilhantismo é uma luz que “alumia” o mundo inteiro. Infelizmente os nossos políticos não nos merecem, só nos calham corruptos e incompetentes. É a nossa maldição, um povo tão bom, governado por tipos que não prestam.
Diz C: - Humm… ouve lá, então achas que essas figuras que citaste, e a que podias acrescentar o Figo, o Ronaldo, o Mourinho, o Évora no desporto de alta competição, o dito Damásio na Ciência, o Saramago na literatura, o Siza na arquitectura, para só falar destes, representam o povo português? O Zé e a Maria? Os que, se, por isto ou por aquilo, foram alcandroados a banqueiros ou presidentes desta ou daquela coisa, querem é mamar do bom e do belo, ter bons bólides, cartão com gordo crédito, querendo pouco saber da sustentabilidade das instituições que lhes calharam em sorte, privatizando os lucros e socializando os prejuízos, ou os discípulos de Hipócrates, juntamente com uns farmacêuticos sem escrúpulos, que burlam o SNS em milhões, os empresários que sacam o IVA dos clientes, o IRS e a TSU dos empregados e se “esquecem” de os entregar ao Estado e, quando apanhados, já preventivamente colocaram os bens ao luar em nome da tia, da prima, do cão, do gato e do periquito, que passam a vida a clamar contra “o peso excessivo do estado”, enquanto preenchem mais um pedido de subsídio, os autarcas que, na véspera da saída, assinam contratos lesivos para o povo, envolvendo milhões, os… os… os….
Neste ponto “C”, enervado com o enumerar dos infinitos crápulas que nos esbulham é obrigado a molhar a palavra…Ahhhh!
Diz D, acabado de chegar (mas ainda a tempo de ouvir o arrazoado de C):- “Tá” bem mas esses são os bandidos, não são o povo…
Diz C (limpando os beiços às costas da mão): - … brincamos, não? Espera, os portugueses que não tiveram tanta sorte e ficaram pela parte baixa da escala, usam a baixazinha fraudulenta, o recebimento do subsídio ao mesmo tempo que sacam uns biscates, na segunda-feira já proclamam que “nunca mais é sábado”, até fazem greve para satisfazer o Sindicato (o respeitinho é muito bonito) mas “metem” um P1, P2, P3, P4, Pn para não “perderem” o dia, que… que…
Diz B: - Esperem, os políticos são como são, porque emanam de nós! Falaste dos autarcas? Tens razão, são uns bandidos e uns corruptos. Mas certamente sabes que, aqui há uns anos, no tal tempo das vacas gordas, se algum autarca chegasse ao pé de um grupo de cidadãos e lhes perguntasse: – Gente da minha terra, o que é que acham que nos faz falta? Talvez uma biblioteca, um centro cultural, salas de estudo para as nossas crianças…
- “Atão” senhor presidente, o que faz falta são Icês, Ipês, acessibilidades, Escanzelados de Baixo tem oito rotundas e nós só temos sete? E subsídios a fundo perdido para que o nosso clube, o Atlético Sport Escanzeladense de Cima, possa comprar três brasileiros e dois búlgaros que nos impeçam de descer de divisão… Para bem do nosso concelho, se for preciso, até o senhor Abade os casa com umas meninas cá da terra, que estão a estudar em Lisboa, na Universidade qu’a gente não se alembra o nome mas que fica junto ao Campo Pequeno, na Óscar Monteiro Torres…
Diz D: - Queres então dizer que se o país está cheio de estradas, auto-estradas e rotundas é porque foram os populares que as pediram?
Diz A: Claro, porque é que achas que os corruptos são sucessivamente reeleitos?
Diz a D.Felisminha…(não podia faltar) : - Então e o partido da Catherine Deneuve, que disfarçou as contrapartidas do negócio dos “que andam debaixo de água”, com donativos, um dos quais de um tal Jacinto Leite Capelo Rego…
Diz B: - Bom, já que a senhora falou nesses, não se esqueça dos outros, os que, para aproveitar o método de Hondt, concorrem como um único partido ( e tanto eles gostariam de ser Partido Único) e, depois, desdobram-se convenientemente para terem dois grupos parlamentares, com assessores a dobrar, tempo de intervenção maior que os outros e até possibilidade de duas moções de censura.
Diz C:… e que estão sempre a pedir eleições. Pudera, assim podem mamar os subsídios para a campanha, uns quantos euritos por cada voto e até explorarem os “camaradas” que vão para as mesas de voto e entregam ao Partido as setenta e tal mocas que recebem dos contribuintes.
Diz B: - Vai lá perguntar aos partidos se querem reduzir o número de deputados, ou de Câmaras Municipais, ou de Freguesias, ou de Conselhos Coordenadores disto ou daquilo. Sim senhor, reduzir, poupar, reconverter, é importante mas, atenção, só se for no vizinho do lado.
Diz o Pai Natal, enquanto, mordendo o lábio inferior, rosna baixinho um “descontrai!… descontrai!…”: - É pá, isto está mesmo mau por esses lados; desculpem lá mas há uma grande diferença entre o tipo que rouba milhões e o desgraçado que rouba, vá lá, dez euros. Ou não há?
Diz o grilo falante: - Claro que há! O tipo que se permite só roubar dez euros é porque nunca teve hipótese de ter os tais milhões ao alcance.
Cai mesmo o pano!
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