Vou imaginar um cenário:
Um tipo chamado Jumarílio furta a carteira ao Flurípeo.
Da sua janela o Hortênsio vê tudo. Quando o Jumarílio é preso, o dono da carteira furtada (o Flurípeo), informa a Polícia que o Hortênsio assistiu ao furto. Este mente afirmando que nada sabe sobre o assunto.
Nas redes sociais, o Hortênsio é declarado culpado do furto e todos reclamam a sua prisão. O Jumarílio, aliviado, também faz parte do coro.
Os célebres contratos SWAP têm a seguinte proveniência:
No tempo do Guterres foi assinado 1 contrato tóxico.
No tempo do Barroso foram assinados 9 contratos tóxicos.
No tempo do Lopes foram assinados 6 contratos tóxicos.
No tempo do Sócrates foram assinados 108 contratos tóxicos.
No tempo do Coelho foram assinados 0 contratos tóxicos.
A Maria Luís mentiu declarando que nada sabia sobre estes contratos.
As redes sociais declaram a Maria Luís culpada dos Contratos SWAP e alguns que estavam em governos onde esses contratos foram assinados fazem parte do coro.
Tenho uma resposta para a questão, embora admita que possa não estar correcta. A maior parte das pessoas que partilham estas notícias, colocando, por exemplo, a cara do ministro Paulo Macedo junto do texto “buraco de 6.000 milhões na saúde”, são afectas aos dois Partidos de esquerda (à esquerda do PS) representados no nosso Parlamento. Portanto não lhes interessa muito, nem a justiça, nem a correcção do que é posto ou partilhado. O importante é bater em quem lá está no momento. Como têm a ideia de que nunca serão governo, bater em quem lá está no momento só pode acertar no PS, no PSD ou no CDS. Gostava de poder dar, juntamente com os meus compatriotas, um presente envenenado a esses Partidos e aos seus dirigentes: O Poder!
O povo – penso – não ficaria melhor mas tudo seria mais tranquilo. Acabavam-se as greves, os primeiros de Maio de luta, seriam transformados em dias de Festa, com as criancinhas mais os trabalhadores, devidamente enquadrados por Sindicatos verticais, a acenarem com ramos de flores para o palanque onde o Jerónimo, a Avoila, o Arménio, o Nogueira, a Martins e o Semedo acenariam, contemplando os marchantes com sorrisos e beijinhos. Também qualquer manife seria imediatamente reprimida pelas brigadas “Avante”, devidamente protegidas pela “mílicia popular”. Quais roubos?, qual corrupção? Tudo isso deixaria de nos incomodar porque as comissões da Televisão e jornais velariam para que qualquer notícia contra os interesses do povo fosse excluída da programação ou das manchetes.
Neste prosseguir da estação parva, com um Verão em vai e vem, deixei de ser politicamente órfão e já decidi quem vai ter o meu voto. E se algum tipo se atrever a dizer-me: A luta continua Jerónimo para a rua, zás, denuncio-o como inimigo da Pátria, na esperança de que seja mandado para o Goulag da Serra da Estrela.
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