sábado, 2 de novembro de 2013

Dia de Finados


Sem saber bem como, estou na “Alexandre Herculano”. À minha volta gente, muita gente, uns parados, outros a deslocarem-se sem ruído. Aliás, tudo é silêncio. As cores não enganam: a palidez do rosto e das mãos, o preto-e-branco da rua, dos prédios, do próprio céu. Estranho, não me lembrava que ainda existissem os postes com os fios dos eléctricos. Uns vestidos de sobretudo e com chapéu, além um grupo de mulheres trajando à dama-antiga, dois hippies, um bau-bau com a sua flausina de saia plissada e soquetes. Já percebi, são milhares porque estão aqui todos os que por cá andaram desde sempre. Não falam, nem sei se comunicam, talvez nalguma linguagem que eu, recém-chegado, tenha de aprender. Pelo menos o aspecto é normal, não há aquele ar aterrador dos zombies do cinema. Há uns mais novos e outros velhos, alguns muito, pelo que parece que cada um permanece na idade em que resolveu partir. 
Espera, a “Coimbra” está aberta e tem pessoas lá dentro. Nem vento, nem um lixo no chão. Vou entrar. As mesas juntas e tudo sentado à volta parece configurar algum tipo de celebração; mas ninguém consome nada, aliás as mesas estão vazias do que quer que seja. Será um aniversário? E, em caso afirmativo, que data se comemora? Provavelmente a da entrada na nova vida. Saio. Tenho pressa, quero descer a avenida para, indo às raízes, tentar encontrar os meus velhos, que são só meus e os que, sendo meus, também são nossos. Talvez andem lá para os lados da "Smarta". Que excitação. Mas há tanta gente que me é quase impossível passar. Um tipo, que não reconheço, olha para mim. Espera, já consigo. Está a “falar” comigo embora a boca não mexa: “´Já vi que és novo por aqui. Tem calma, vais ter muito tempo para colocares respostas em todas as tuas perguntas”.

Descansem em paz.

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