sábado, 12 de abril de 2014

O cabo Alves

Antes do 25 de Abril contava-se uma história em que um popular tinha dominado, com as próprias mãos, uma fera que tinha fugido de um circo.
Na redacção do DN, um repórter foi destacado para uma entrevista com aquele que seria o símbolo do herói português.
- Bom dia, então o senhor conseguiu dominar a fera sem qualquer arma?
- Sim.
- Certamente baseia a sua determinação na consciência de que o governo está a fazer o melhor pela Nação?
- Por acaso nem acho isso.
- Bom, mas pelo menos acha que a nossa política em África é a mais correcta?
- Então aí é que estou em completo desacordo.
- Bem, então ficamos por aqui.
No dia seguinte o jornal publicou: Animalzinho inofensivo, barbaramente agredido por perigoso comunista.

 O cabo Alves, herói do 25 de Abril, ao não ter cumprido a ordem de disparar sobre o Salgueiro Maia, dada pelo Junqueiro dos Reis, tornou possível tudo o que seguiu.

Descoberto num livro do jornalista Adelino Gomes, foi também entrevistado por vários jornais. Homem de poucas palavras, cometeu o “crime” de afirmar que “nunca tinha participado em manifestações”, “ter criado quatro filhos com dificuldades e muito trabalho”, considerar que o que está mal é “o desrespeito que se passa no país”, “o achar que muitas das medidas que se têm tomado, mesmo afectando-o, serão talvez necessárias” e até considerar o seu antigo patrão como “uma das pessoas mais importantes da sua vida”.
Não se chegou ao ponto de o acusar de estar a mamar do tacho, mas que desapareceu rapidamente das manchetes é uma realidade.
Cada época tem o seu politicamente correcto.
Quando penso na surpresa de muita gente sobre as sondagens, apesar de toda a crise, não mostrarem o descolar dos partidos da oposição e, dentro destes, muito menos os mais à esquerda e os odiados partidos do governo conseguirem aguentar-se, até com perspectivas de alguma subida até 2015, chego à conclusão que a grande maioria dos portugueses são essencialmente “cabos Alves” e que as elites citadinas, que andam pelas redes sociais, assumindo-se a si mesmas como bem pensantes, ainda têm muito a aprender sobre nós próprios.

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