Alguns factos:
A mulher que gritou no 5 de Outubro
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Chegou a Lisboa há 30 anos, mais coisa menos coisa. "Vim como a maioria das mulheres da minha terra veio, com o marido e os filhos, em busca de uma outra vida.
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O coração pende-lhe mais para a esquerda. "Sempre votei, desde os 18 anos, nunca falhei. Nunca votei Cavaco Silva e sempre votei à esquerda, embora não tenha partido. Até porque acho que não é preciso ter posição política definida para achar que todas as pessoas devem ter as mesmas oportunidades e direitos."
"Oh, aquilo chegou a dar mesmo muito dinheiro, não sei dizer quanto, mas a nível económico vivíamos bem. Férias no Algarve em tempo de praia, jantares fora, sem preocupações, uma casa grande de quatro assoalhadas em Odivelas, onde não faltava nada." O aparecimento das grandes superfícies começou "a complicar um negócio" que foi próspero durante muito tempo. "Aí foi a decadência. A juntar a isso, o meu marido começou a meter-se em coisas que dão aos homens daquela idade, a beber, a ficar alterado. Começámos a ter, eu e o meu filho – que ainda vivia comigo –, uma situação insustentável, o meu marido tratava-me muito mal fisicamente.
"Já tinha quase cinquenta anos mas tive que me ir embora.
Tanto que a vida lhe trocou as voltas pouco depois de sair de casa com o filho, e ela mais uma vez respondeu. "O meu marido ficou doente, às portas da morte. Apesar de o ter deixado, eu é que fui tratar dele até ao fim." Nunca se tinham divorciado no papel, e a isso Luísa deve os 227,42 euros que recebe todos os meses. "É a pensão de sobrevivência. Fora isso, não tenho direito a mais nada, porque descobri tarde demais que o meu marido não tinha feito os meus descontos daqueles anos todos em que trabalhámos na casa de electrodomésticos. Estou entalada de todos os lados. A piorar o cenário difícil, a casa de Odivelas onde o casal viveu "teve de ser entregue à Banca para cobrir as dívidas" do marido, "e do mobiliário pouca coisa se conseguiu vender".
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É que, como ela diz "não é preciso ter posição política definida para achar que todas as pessoas devem ter as mesmas oportunidades e direitos." Direitos sim, Dona Luísa Avelina Lopes Lages Trindade, então e os DEVERES?

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