domingo, 27 de outubro de 2013

Até a mim, que não participo em manifestações ou greves, me meteu dó o esforço que os repórteres televisivos faziam para descortinar uma “multidão” nas poucas pessoas que, em Lisboa e sobretudo no Porto, gritavam contra a troika.
Não que isso signifique que o povo “goste” dessa gente ou dos que, em Portugal, lhes seguem cegamente a receita. Claro que não, antes pelo contrário.
Agora é indubitável que algo está errado. Esta gente que manda na oposição de esquerda deve – sob pena de não irem a lado nenhum – deixar o circuito fechado dos sindicalistas, das comissões de trabalhadores, dos gabinetes da Vítor Cordon e falarem com o verdadeiro povo que sofre, largarem o show off televisivo dos piquetes de greve e perceberem a angústia que transparece nos rostos, nas paragens de autocarro que não se sabe se vem, nas grades fechadas do metro, no silêncio dos motores dos barcos do Tejo ou no desespero de uma consulta com meses de espera que – logo por azar – calhou num dia de paralisação de um qualquer grupo profissional e, que por esse facto, fica novamente para as calendas, e perceberem que, por cada greve contra os mais indefesos, ou manifestação agressiva em que gente (como na de sábado) entra num McDonald’s, gritando contra o capitalismo, num local onde não há um único capitalista, mas apenas empregados assustados com eventuais destruições que ponham em causa o seu precário posto de trabalho e clientes atarantados que o frequentam porque é barato e não porque sejam lacaios do capital, há votos que podiam e deviam ser da esquerda que fogem, se calhar até para a coligação que nos desgoverna.
Chego a pensar que, como essas pessoas (Arménios, Nogueiras, Avoilas, etc…) não é parva, se trata apenas da auto-defesa do seu actual estilo de vida, que é essencialmente o de gente que, ostentando profissões como electricista, professor ou funcionário administrativo, há décadas que não “fala” com um kilovátio, não risca uma ardósia com giz ou não lambe um selo para colar numa notificação.
Que tristeza!

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