sábado, 22 de junho de 2013

O senhor Abílio Carvalho, que, tal como a professora Isabela Figueiredo, também é amplamente partilhado no FB, tem, na sua agressiva página, um cartaz muito interessante.

Eu, que fui gráfico no início da minha actividade profissional, não lhe vou louvar as qualidades de imagem, as quais são sofríveis, mas sim a mensagem.
Diz esta o seguinte:
“Como explicarás aos teus filhos que perdeste o que os teus pais conquistaram com a luta / Como poderás sentar-te em frente aos teus filhos e dizer-lhes que não têm direitos porque tiveste medo de lutar”.

Ora esta mensagem lembra-me a célebre teoria da “curvatura da vara”, atribuída a Vladimir Ilyitch Uliánov (vulgo Lenin) e que, em poucas palavras, diz o seguinte: Quando uma vara está curvada à força para um lado e se solta de repente, não vai calmamente para a posição de equilíbrio mas sim violentamente para o lado oposto, novamente para o lado original e assim sucessivamente.

Sobre a “luta” que é referida no cartaz, penso ser muito pretensioso que uma geração esteja a apresentar-se perante os jovens como tendo sido, “em perigos e guerras esforçados”, uns lutadores do caraças. Eu vivi esses tempos, fui dirigente do Sindicato das Artes Gráficas e membro de uma Comissão de Trabalhadores e não tenho ideia que essas grandes conquistas tenham sido assim tão difíceis como isso; uma grevezita, uma ocupação, com muita jogatana de lerpa e montinho e já estava; não nos esqueçamos que governos provisórios, Conselho da Revolução e até a Presidência estavam essencialmente empenhados em assegurar que, politicamente, as coisas não descambassem para fora da democracia formal e não em coartar a melhoria de vida dos trabalhadores. Além disso ainda havia ouro e divisas (a pesada herança) e a grande arma da desvalorização da moeda, acompanhada da hiper-inflação, que permitia grandes aumentos de salários. Mais, a extensão do sector público era enorme, comparada com a de hoje. Bancos, Seguros, a totalidade dos Transportes, estaleiros, etc… etc… pertenciam ao Estado, que é de todos e de ninguém.

Estes cromos, ao colocarem-se em bicos de pés, como tendo sido grandes “lutadores”, estão simplesmente a ofender a memória, por exemplo, das operárias americanas do século XIX, que morreram queimadas no 1º de Maio ou dos camponeses alentejanos, perseguidos, presos e mortos, durante o Estado Novo.

Até o famigerado Cavaco, por razões eleitoralistas e com parte dos milhões que vinham da Europa, contribuiu para a chamada criação do monstro, dando, de mão beijada, progressões automáticas nas carreiras, o que garantia o aumento da massa salarial mesmo que os salários-base não fossem aumentados.

Ora, dando de barato que, antes do 25 de Abril, a vara de Lenin estava violentamente puxada para o lado dos patrões (estado incluído), e a revolução a libertou dessa inclinação, é líquido que a vara passou para o outro lado e que agora naturalmente terá de haver alguma perda para se atingir o equilíbrio. E tanto é mais verdade que estes totós, que se arrogam de serem protagonistas de grandes lutas, não valem um caracol, que, por exemplo, no caso dos trabalhadores do sector privado, tudo recuou rapidamente logo poucos anos depois. Basta atentar que a primeira lei dos contratos a prazo (os chamados precários) data de 1983.

O próprio Estado recorre, desde essa altura, a artimanhas para ultrapassar as suas próprias leis, garantes dos direitos dos seus trabalhadores, as quais se revestem do eufemismo designado por “outsourcing”.

E, para que tudo seja redondo, como a “bola colorida nas mãos de uma criança”, eis estes jovens “outsourcers”, maioritariamente precários, a recibos verdes, sem horário, sem futuro, os tais filhos e netos que figuram na parte final do cartaz, referido no início, e que não precisam que ninguém lhes explique que os senhores Abílios e quejandos há muito que perderam as tais lutas que, em boa verdade, nem sequer chegaram a travar.





       

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