O senhor Abílio Carvalho, que, tal como a professora Isabela
Figueiredo, também é amplamente partilhado no FB, tem, na sua agressiva página,
um cartaz muito interessante.
Eu, que fui gráfico no início da minha actividade
profissional, não lhe vou louvar as qualidades de imagem, as quais são
sofríveis, mas sim a mensagem.
Diz esta o seguinte:
“Como explicarás aos teus filhos que perdeste o que os teus
pais conquistaram com a luta / Como poderás sentar-te em frente aos teus filhos
e dizer-lhes que não têm direitos porque tiveste medo de lutar”.
Ora esta mensagem lembra-me a célebre teoria da “curvatura
da vara”, atribuída a Vladimir Ilyitch Uliánov (vulgo Lenin) e que, em poucas
palavras, diz o seguinte: Quando uma vara está curvada à força para um lado e
se solta de repente, não vai calmamente para a posição de equilíbrio mas sim
violentamente para o lado oposto, novamente para o lado original e assim
sucessivamente.
Sobre a “luta” que é referida no cartaz, penso ser muito
pretensioso que uma geração esteja a apresentar-se perante os jovens como tendo
sido, “em perigos e guerras esforçados”, uns lutadores do caraças. Eu vivi
esses tempos, fui dirigente do Sindicato das Artes Gráficas e membro de uma
Comissão de Trabalhadores e não tenho ideia que essas grandes conquistas tenham
sido assim tão difíceis como isso; uma grevezita, uma ocupação, com muita
jogatana de lerpa e montinho e já estava; não nos esqueçamos que governos
provisórios, Conselho da Revolução e até a Presidência estavam essencialmente
empenhados em assegurar que, politicamente, as coisas não descambassem para
fora da democracia formal e não em coartar a melhoria de vida dos
trabalhadores. Além disso ainda havia ouro e divisas (a pesada herança) e a
grande arma da desvalorização da moeda, acompanhada da hiper-inflação, que
permitia grandes aumentos de salários. Mais, a extensão do sector público era
enorme, comparada com a de hoje. Bancos, Seguros, a totalidade dos Transportes,
estaleiros, etc… etc… pertenciam ao Estado, que é de todos e de ninguém.
Estes cromos, ao colocarem-se em bicos de pés, como tendo
sido grandes “lutadores”, estão simplesmente a ofender a memória, por exemplo,
das operárias americanas do século XIX, que morreram queimadas no 1º de Maio ou
dos camponeses alentejanos, perseguidos, presos e mortos, durante o Estado Novo.
Até o famigerado Cavaco, por razões eleitoralistas e com
parte dos milhões que vinham da Europa, contribuiu para a chamada criação do
monstro, dando, de mão beijada, progressões automáticas nas carreiras, o que
garantia o aumento da massa salarial mesmo que os salários-base não fossem
aumentados.
Ora, dando de barato que, antes do 25 de Abril, a vara de
Lenin estava violentamente puxada para o lado dos patrões (estado incluído), e
a revolução a libertou dessa inclinação, é líquido que a vara passou para o
outro lado e que agora naturalmente terá de haver alguma perda para se atingir
o equilíbrio. E tanto é mais verdade que estes totós, que se arrogam de serem
protagonistas de grandes lutas, não valem um caracol, que, por exemplo, no caso
dos trabalhadores do sector privado, tudo recuou rapidamente logo poucos anos
depois. Basta atentar que a primeira lei dos contratos a prazo (os chamados
precários) data de 1983.
O próprio Estado recorre, desde essa altura, a artimanhas
para ultrapassar as suas próprias leis, garantes dos direitos dos seus
trabalhadores, as quais se revestem do eufemismo designado por “outsourcing”.
E, para que tudo seja redondo, como a “bola colorida nas
mãos de uma criança”, eis estes jovens “outsourcers”, maioritariamente
precários, a recibos verdes, sem horário, sem futuro, os tais filhos e netos
que figuram na parte final do cartaz, referido no início, e que não precisam
que ninguém lhes explique que os senhores Abílios e quejandos há muito que
perderam as tais lutas que, em boa verdade, nem sequer chegaram a travar.
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