terça-feira, 3 de março de 2015

Ontem, quando regressava de uma animada partida de futsal, ao mesmo tempo que ouvia no mp3 uma magnífica canção de José Afonso chamada Utopia, dei comigo a reflectir sobre os porquês de ser o futebol, mais que um desporto, um extraordinário movimento de massas, transversal às sociedades e concitador de paixões como não existe paralelo em quase nenhuma outra actividade humana. Provavelmente é por ser absolutamente o espelho perfeito dos alcatruzes da nora que constituem a nossa vida quotidiana: brilhantes, desastrosos, manhosos, individuais umas vezes, colectivos outras e com a dose perfeita de controvérsia que se arrasta muito para além do tempo de jogo.
A própria política tem muito a ver com os conceitos do futebol, isto a propósito de uma jovem brilhante que se evidenciou na comissão parlamentar que investiga o escândalo BES, Mariana Mortágua, capaz, como poucos, de grandes fintas e boa visão de jogo, as quais culminaram no espectacular golo de bandeira em que um aparvalhado guarda-redes Zeinal Bava mais não pôde fazer que seguir o esférico com os olhos.
Ora a Mariana, jovem talentosa, tem o pecado de militar num clube pequeno, dos tais que nunca se pensa que possa ganhar o campeonato, sendo, por isso quase impossível que ela consiga chegar à selecção (governo) nacional.
Restar-lhe-ia, tal como no futebol, trocar o seu clube por um grande, como outros têm feito, até mesmo para uma espécie de equipa B de um grande, como fizeram os seus correligionários Rui Tavares, Daniel Oliveira e Ana Drago, na tentativa de serem chamados, mesmo na condição de suplentes, a um jogo naquelas taças menos importantes.
Ora isso quase nunca dá bons resultados. Milhares e milhares de futebolistas tentaram essa táctica mas invariavelmente perderam-se, quer seja porque jogar num grande não é o mesmo que jogar num pequeno, quer ainda porque os poderes instituídos nessas agremiações, os forçam a acomodar-se ou a desistir.

Então, tal como com Lenine, perguntemo-nos: Que fazer?

Muitos de nós certamente gostariam de poder votar na Mariana Mortágua sem, ao mesmo tempo, serem obrigados e votar na Catarina Martins, no militante X ou Y do BE e também de termos a capacidade de eleger outros de vários partidos, ou até gente fora dos partidos, mas só nos resta a malfadada cruz no boletim, significando a nossa entrega total a uma única formação de que desconhecemos a maioria das figuras ou até se as trocas e baldrocas da política farão com que sejam outros boys ou girls, ainda mais desconhecidos, os que vão usufruir do trabalho que tivemos na deslocação à mesa de voto.

Para já e nos próximos tempos, não tenho ilusões. Vai continuar a ser assim, mesmo que isso afaste cada vez mais gente do que deveria ser uma alegria cívica e não uma espécie de encolher de ombros destinado a assinalar mais um ritual de substituição de uns que são maus por outros que são péssimos.

No entanto - e aqui está a ligação com a canção Utopia, do início do texto - tenho fé (e esperança) que, no futuro, as coisas serão diferentes: A próxima geração, completamente info-alfabetizada, poderá votar exclusivamente via smartphones, tablets, computadores ou outro qualquer gadget electrónico que os substitua ou complemente. Isso fará com que seja possível cada um votar na sua própria "playlist", fugindo de vez à subordinação aos lóbis partidários, à falsa democracia representativa e ao centralismo democrático, até referendando situações em modo instantâneo, etc, etc, numa recriação da verdadeira democracia directa, até aqui só possível em pequenos grupos.

Poderão aí, os que vierem depois de nós, criar a verdadeira selecção nacional da política. Até os riscos do "conário" eleger um qualquer Tony Carreira para Presidente ou a "picharia" uma boazona duma Cristina Ferreira para Primeira-Ministra serão, mesmo assim, bem menores que os que nos permitiram eleger os que já elegemos nos últimos 40 anos.
     


  


Sem comentários:

Enviar um comentário