Ontem, quando regressava de
uma animada partida de futsal, ao mesmo tempo que ouvia no mp3 uma magnífica
canção de José Afonso chamada Utopia, dei comigo a reflectir sobre os porquês
de ser o futebol, mais que um desporto, um extraordinário movimento de massas,
transversal às sociedades e concitador de paixões como não existe paralelo em
quase nenhuma outra actividade humana. Provavelmente é por ser absolutamente o
espelho perfeito dos alcatruzes da nora que constituem a nossa vida quotidiana:
brilhantes, desastrosos, manhosos, individuais umas vezes, colectivos outras e
com a dose perfeita de controvérsia que se arrasta muito para além do tempo de
jogo.
A própria política tem muito a
ver com os conceitos do futebol, isto a propósito de uma jovem brilhante que se
evidenciou na comissão parlamentar que investiga o escândalo BES, Mariana
Mortágua, capaz, como poucos, de grandes fintas e boa visão de jogo, as quais
culminaram no espectacular golo de bandeira em que um aparvalhado guarda-redes
Zeinal Bava mais não pôde fazer que seguir o esférico com os olhos.
Ora a Mariana, jovem
talentosa, tem o pecado de militar num clube pequeno, dos tais que nunca se
pensa que possa ganhar o campeonato, sendo, por isso quase impossível que ela
consiga chegar à selecção (governo) nacional.
Restar-lhe-ia, tal como no
futebol, trocar o seu clube por um grande, como outros têm feito, até mesmo
para uma espécie de equipa B de um grande, como fizeram os seus
correligionários Rui Tavares, Daniel Oliveira e Ana Drago, na tentativa de
serem chamados, mesmo na condição de suplentes, a um jogo naquelas taças menos
importantes.
Ora isso quase nunca dá bons
resultados. Milhares e milhares de futebolistas tentaram essa táctica mas
invariavelmente perderam-se, quer seja porque jogar num grande não é o mesmo
que jogar num pequeno, quer ainda porque os poderes instituídos nessas
agremiações, os forçam a acomodar-se ou a desistir.
Então, tal como com Lenine,
perguntemo-nos: Que fazer?
Muitos de nós certamente
gostariam de poder votar na Mariana Mortágua sem, ao mesmo tempo, serem
obrigados e votar na Catarina Martins, no militante X ou Y do BE e também de
termos a capacidade de eleger outros de vários partidos, ou até gente fora dos
partidos, mas só nos resta a malfadada cruz no boletim, significando a nossa
entrega total a uma única formação de que desconhecemos a maioria das figuras
ou até se as trocas e baldrocas da política farão com que sejam outros boys ou
girls, ainda mais desconhecidos, os que vão usufruir do trabalho que tivemos na
deslocação à mesa de voto.
Para já e nos próximos tempos,
não tenho ilusões. Vai continuar a ser assim, mesmo que isso afaste cada vez
mais gente do que deveria ser uma alegria cívica e não uma espécie de encolher
de ombros destinado a assinalar mais um ritual de substituição de uns que são
maus por outros que são péssimos.
No entanto - e aqui está a
ligação com a canção Utopia, do início do texto - tenho fé (e esperança) que,
no futuro, as coisas serão diferentes: A próxima geração, completamente
info-alfabetizada, poderá votar exclusivamente via smartphones, tablets,
computadores ou outro qualquer gadget electrónico que os substitua ou
complemente. Isso fará com que seja possível cada um votar na sua própria "playlist",
fugindo de vez à subordinação aos lóbis partidários, à falsa democracia
representativa e ao centralismo democrático, até referendando situações em modo
instantâneo, etc, etc, numa recriação da verdadeira democracia directa, até
aqui só possível em pequenos grupos.
Poderão aí, os que vierem depois
de nós, criar a verdadeira selecção nacional da política. Até os riscos do "conário"
eleger um qualquer Tony Carreira para Presidente ou a "picharia" uma
boazona duma Cristina Ferreira para Primeira-Ministra serão, mesmo assim, bem menores
que os que nos permitiram eleger os que já elegemos nos últimos 40 anos.
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